
Criado a partir de experiências reais, o espetáculo “Escolhas” vai além do teatro: é um dispositivo de escuta, acolhimento e transformação social. Idealizado e interpretado pela artista Juliana Bordallo, com 25 anos de trajetória na palhaçaria, o projeto aborda violências de gênero a partir de uma perspectiva inusitada — o riso.
Em alusão ao Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização pelo fim da violência contra a mulher, o Bordallo Cultural realiza o “Projeto Escolhas”, que será apresentado nesta sexta-feira (8), às 19 horas, no Teatro Guarany, com entrada gratuita. A iniciativa promove um diálogo entre arte e políticas públicas, reunindo a apresentação de um espetáculo circense e um círculo de escuta com mulheres que atuam no poder público de Santos.
Na peça, Juliana dá vida à palhaça Flóris da Silva, que, com leveza e sensibilidade, convida o público a refletir sobre assédios, silenciamentos e as escolhas que moldam a vida de tantas mulheres. O humor, aqui, não suaviza a dor — ele abre espaço para que ela seja ouvida. “O riso não está na violência, mas nas minhas vulnerabilidades. E foi aí que encontrei o tom da dramaturgia”, afirma. “O espetáculo termina com a frase: ‘Eu escolhi a mim’. É disso que se trata: das escolhas que nos salvam”.
Um espetáculo que escuta
Criado há sete anos a partir de uma demanda emergente — denúncias de assédio entre jovens aprendizes do Senac — o espetáculo foi encomendado pela advogada Thaís Perico, que buscava uma abordagem não dramática para tratar o tema. “Thaís me chamou porque sabia que eu estudava palhaçaria feminina e dramaturgia feminista. Aceitei o desafio na hora”, relembra Juliana.
Desde então, “Escolhas” percorreu escolas, festivais, unidades do Sesc e instituições como a Fundação Casa feminina, consolidando-se como uma ferramenta potente de denúncia, acolhimento e mobilização social. A cada apresentação, uma roda de conversa — hoje chamada de “círculo de escuta” — é realizada com mediação de Thaís, que compartilha dados, leis e caminhos para apoio. “Nunca fiz uma apresentação sem que alguém me procurasse depois. Sempre tem alguém que viveu ou está vivendo uma violência. E isso acontece em todos os lugares — da periferia ao Sesc”, conta Juliana. “A violência não tem classe social. A diferença é que, em algumas camadas, as mulheres escondem mais. E em outras, não têm para onde ir”.
Projeto social
O “Projeto Escolhas” cresceu e ganhou novos desdobramentos. Um deles é o zine ilustrado que acompanha o espetáculo, com a história da palhaça Flóris e uma lista de contatos de emergência e serviços de apoio. “A gente percebeu que o flyer ia para o lixo. Mas o zine as pessoas guardam. Se identificam”, explica Juliana.
Outro braço da iniciativa é o projeto “Elas por Elas”, que promove encontros semanais durante seis meses em comunidades periféricas. A proposta é fortalecer redes de apoio e estimular a autonomia feminina. “A vizinha pode ser a única pessoa que chega a tempo. A gente precisa fortalecer esses laços. Gritar por socorro não pode ser em vão”, afirma.
Edição especial
A apresentação no dia 8 integra a campanha Agosto Lilás, que visa sensibilizar e informar sobre os tipos de violência contra a mulher e os canais de denúncia. Além da peça e do círculo de escuta, o evento contará com a participação de representantes do poder público, como a vice-prefeita e secretária da Educação, Audrey Kleys; a secretária da Mulher, Nina Barbosa; as vereadoras Cláudia Alonso, Débora Camilo e Renata Bravo; e a coordenadora de Políticas para Mulheres de Santos, Larissa Paz. “Elas vão falar das pautas que estão trabalhando, mas também vão ouvir. Porque muitas vezes a política existe, mas ninguém sabe onde procurar. É uma chance real de escuta. De construir política pública com base no que as mulheres vivem”, explica Juliana.
Para garantir a participação de mulheres de diferentes territórios, haverá transporte gratuito saindo de regiões como Vila Pantanal, Vila dos Criadores e Areia Branca. A programação contará ainda com um coffee break de confraternização, com apoio do CMEC – Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura da ACS Santos.
Arte como cura
Juliana Bordallo começou sua trajetória como palhaça aos 18 anos, após largar o curso de Direito. “Um professor dizia que era o melhor advogado porque era um ótimo ator. Aquilo me despertou”, lembra. Desde então, mergulhou em estudos sobre palhaçaria hospitalar, cultura popular brasileira e comicidade feminina. Atualmente, é também professora de filosofia no ensino médio — e se preocupa com o que vê. “A escola está falhando. A sociedade está regredindo. Eu sou muito mais aberta que muitos adolescentes da nova geração. Por isso, a arte precisa ocupar cada vez mais os espaços de debate. E ocupar com escuta, com riso, com acolhimento”, defende.
Segundo ela, o humor é uma ponte poderosa. “A plateia ri da fragilidade da minha palhaça porque se vê nela. A violência aparece no final, como um soco. Mas o riso já abriu espaço para escutar”.
O espetáculo também teve efeito terapêutico para a própria artista. “O ‘Escolhas’ é o projeto da minha vida. Porque ele primeiro me curou — e hoje cura outras mulheres também”. E completa. “A arte fala mais do que alguém gritando no seu ouvido. Precisamos abrir espaço para a escuta sensível, para romper ciclos. E, às vezes, isso começa com uma gargalhada”.


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