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Engenheiro destaca importância das ferrovias para o Brasil e na sua vida pessoal

15/02/2022
Reprodução

José Manoel Ferreira Gonçalves lança autobiografia “O trem do meu destino”

O nono livro do engenheiro, jornalista e escritor José Manoel Ferreira Gonçalves ‘O trem do meu destino’ traz um tom afetivo em relação à ferrovia em um breve testemunho autobiográfico. José Manoel conta da sua ligação com os trilhos desde muito novo, quando viu um atropelamento de bonde em São Paulo, no bairro do Brás.
“Meu avô tinha uma loja de tecidos no Brás e aconteceu de um amigo dele ser atropelado por um bonde. Eu, com cinco anos de idade, vendo aquele sangue pra todo lado, fiquei assustado e corri pra dentro da loja do meu avô. Eu amava o bonde, mas aquilo foi um choque pra mim, do nada o bonde virou uma arma de morte, mesmo que o homem não tenha morrido”, comenta.
Os trilhos da vida levaram José Manoel para Santana, na Zona Norte da capital paulista, onde morou perto da linha do famoso Trem das 11 – aquele da música do Adoniran Barbosa – e isso proporcionou para José uma ressignificação do fato passado envolvendo o bonde. Agora, os veículos sobre trilhos faziam parte de uma curiosidade engraçada.
O primeiro livro do jornalista, ‘Despoluindo sobre trilhos’, nasceu após a cobertura de um evento sobre mudanças climáticas em Copenhage, capital da Dinamarca. Após uma discussão sobre a necessidade da redução do uso dos combustíveis fosseis e redução da emissão de gases causadores do efeito estufa, José pensou “Por que não mudar a base do transporte? Ao invés de fazer o transporte sobre pneus, fazer sobre trilhos”.
Para ele, o trem é um dos melhores meios de transporte para se ter no país. Seja para transporte de cargas ou de pessoas. “Trem é bom, limpo, gera empregos e é econômico. É que o Brasil jogou o trem fora, mas nós crescemos em cima de trem. São Paulo e Santos, por exemplo, por conta do café tiveram um grande avanço ferroviário após um acordo com os ingleses, uma história muito bacana que foi jogada fora por falta de investimento”, aponta.
O Trem e o Brasil
Quando o presidente Washington Luís declarou que “Governar é abrir estradas”, falava sobre o povoamento do interior do país, que, naquela altura, já era um país praticamente continental. Para José, pode ser até que ele estivesse certo no momento, mas o Brasil mudou e não houve um planejamento a altura para perceber a importância de uma interligação no país.
Ainda assim, José Manoel aponta que o descaso com as ferrovias já vinha de antes do presidente.
“O Brasil perdeu o trem da história. Nós tínhamos todas as condições de implantar uma malha ferroviária eficiente, ligando os grandes centros entre si e com o interior. Mas isso tudo foi jogado fora e substituído pelos caminhões, que andam por estradas horríveis em sua maioria, o que gera perda de material, gera desconforto para o trabalhador – o motorista”, complementa.
Além disso, no período pós-golpe militar, o Brasil decidiu se desfazer das ferrovias e começou a conceder suas administrações à empresas. “Tivemos coisas absurdas como empresas fabricantes de refrigerante, sem qualquer tipo de aptidão para cuidar de uma ferrovia, então diversos trechos foram abandonados”, relembra.
Em relação a Santos, José aponta algumas incongruências além da qualidade baixíssima da ferrovia no porto. “Esse governo [federal] não entregou um centímetro de ferrovias e quer vender o porto. Dizendo que a gente resolve privatizando, o que não é verdade. Eles mentem dizendo que o Estado esta quebrado, mas na verdade é que o estado precisa tomar escolhas corretas. Voltando pros trilhos, pegando o projeto para o porto: tem cabimento você transportar carga perigosa ao lado do Hospital dos Estivadores? Essa gente nem conhece o porto, projeta as coisas sem vir aqui”, finaliza.
Por fim, José detalha o que deveria ser feito acerca dos trens, utilizando como exemplo a morte de um menino em Cubatão que fora atropelado por um trem ‘estacionado’.
“Nós temos trilhos, espaço e demanda, mas não temos juízo. Porque competência temos, a engenharia brasileira tem competência. Cubatão tem 13 bairros onde o trem passa ao lado das casas… Logo após o Natal, uma criança que jogava bola morreu após buscar a bola que caiu embaixo do trem ‘estacionado’… Um trem não pode ficar estacionado assim em qualquer lugar, tem que ter sinalização, tem que ter trabalho de conscientização da população”, finaliza.

Confira a entrevista na íntegra: