Cena

Em delírio musical de Moreira da Silva, Claudia Cardinale visita a Vila Belmiro

25/09/2025 Gustavo Klein
Divulgação/Arquivo Pessoal

Morengueira Contra 007, samba de Moreira da Silva com letra de Miguel Gustavo, abre a festa em Santos: “Saltando em Santos com a Cláudia Cardinale / … E na maior intimidade com o Pelé”. É um delírio musical que mistura espionagem, futebol e romance. James Bond flagra Pelé beijando Cardinale, Moreira aparece para defender o craque e leva o agente britânico para o DOPS. Com essa trilha sonora imaginária, entramos no universo de Claudia Cardinale, atriz italiana que nos deixou na última terça-feira passeia pela Santos dos anos 1960.

TUNÍSIA

Claudia nasceu em 15 de abril de 1938, em La Goulette, bairro portuário de Túnis, onde vivia uma comunidade italiana. Suas línguas maternas eram o francês e o siciliano, e ela só aprendeu o italiano já adulta, ao entrar no circuito do cinema. Em 1957, venceu o concurso A Mais Linda Garota Italiana na Tunísia, cujo prêmio foi uma viagem para a Itália — porta de entrada para o cinema que mudaria sua vida.

Com aparições iniciais discretas — como em Goha (1958), ao lado de Omar Sharif — começou a abrir caminho no cinema europeu. Já em 1960, atuou em Rocco e seus irmãos, consolidando-se no cinema italiano. O ápice veio em 1963, quando estrelou simultaneamente O Leopardo, de Luchino Visconti, e 8½, de Federico Fellini, dois dos filmes mais reverenciados da história. Em O Leopardo, foi a camponesa Angelica, símbolo da ascensão social na Sicília; em 8½, mergulhou na metalinguagem de sonhos e memórias que definiu a estética felliniana.

Cardinale transitou entre gêneros e países. No cinema americano, participou de produções como The Pink Panther, The Professionals e Blindfold, sem abandonar a base europeia. Atuou com diretores célebres como Visconti, Fellini, Valerio Zurlini, Werner Herzog e Sergio Leone.

Em Era uma vez no Oeste (1968), interpretou Jill McBain, personagem complexa que oscila entre vulnerabilidade e força moral, num dos westerns mais icônicos já feitos.

Na década de 1970, aprofundou laços com o diretor Pasquale Squitieri, com quem manteve parceria pessoal e artística por décadas. Ao longo da carreira, recebeu prêmios importantes, como o Leão de Ouro honorário em Veneza e o Urso de Ouro em Berlim. Em 2000, tornou-se Embaixadora da Boa Vontade da UNESCO, com foco na defesa dos direitos das mulheres.

No samba de Moreira da Silva, Cardinale aparece como figura quase cinematográfica invadindo o mundo do futebol e da espionagem brasileira. A letra propõe que ela foi a Santos com James Bond para sequestrar Pelé e impedi-lo de jogar contra a Inglaterra. O enredo absurdo e bem-humorado inclui até uma cena de beijo com o jogador, flagrada por Bond, seguida do confronto final em que a malandragem carioca triunfa sobre a frieza do espião.

Esse episódio musical revela dois traços interessantes da presença de Cardinale no imaginário cultural do Brasil: a aura de exotismo da estrela italiana e a capacidade de se inserir na mitologia do futebol, ao lado de Pelé, como parte de um enredo que mistura fantasia, humor e paixão.