
Carinho, dedicação e literatura caminham juntos na trajetória da editora artesanal Costelas Felinas (@costelasfelinaseditora). Criada a partir de uma experiência pessoal da escritora Cláudia Brino, a iniciativa se transformou, ao longo dos anos, em um projeto coletivo e afetivo, abrindo espaço para novos autores e diferentes propostas literárias.
Em 2026, a editora celebra um marco expressivo: 50 mil exemplares produzidos manualmente — um feito raro no cenário editorial brasileiro. A conquista reflete um trabalho independente que alia cuidado artesanal a um padrão profissional de acabamento.
A história começou em 1998, após uma frustração com o modelo tradicional de publicação. “Publiquei um livro de forma convencional e não gostei do resultado. Então resolvi aprender encadernação para publicar meus próprios textos”, relembra Cláudia. Durante cerca de dez anos, ela produziu seus livros de forma autônoma, até que, em 2008, a chegada do escritor Antônio Vieira Vivo ampliou os caminhos da editora.
Com trajetória ligada à literatura marginal dos anos 1970, Vieira já produzia livros artesanais. “Era o tempo dos poetas e do mimeógrafo. Quando encontrei a Cláudia, esse ciclo se fechou com uma nova proposta, mais refinada”, afirma. A parceria marcou a transição de um projeto autoral para uma editora aberta a outros escritores.
O crescimento aconteceu de forma espontânea. “Quando lançamos nossos livros, as pessoas começaram a perguntar se poderíamos fazer os delas também”, conta Cláudia. Sem planejamento inicial ou metas rígidas, a demanda foi guiando o desenvolvimento da editora, que hoje reúne autores de diferentes regiões do Brasil e até do exterior.
Atualmente, o catálogo ultrapassa 900 títulos, abrangendo gêneros como poesia, romance, literatura infantil, obras acadêmicas e religiosas. Ao longo da trajetória, a editora também acumulou obras premiadas nacional e internacionalmente, consolidando sua relevância no campo da produção independente.

Produção artesanal
O diferencial da Costelas Felinas está no processo de produção. Cada exemplar é feito manualmente — com páginas dobradas, furadas e encadernadas à mão —, mas com acabamento que se aproxima do padrão industrial. “Nosso lema é: artesanal, sim; rústico, não”, resume Vieira.
O modelo de trabalho também foge do convencional. Antes de fechar qualquer projeto, o autor recebe gratuitamente um exemplar modelo em casa. Só depois decide se deseja seguir com a publicação. A produção é sob demanda, variando de um único exemplar a pequenas tiragens, com prazos que podem chegar a 90 dias.
Apesar do caráter artesanal, a editora cumpre todas as etapas formais do mercado editorial, como registro de ISBN, ficha catalográfica e depósito legal. A divulgação também acompanha os tempos atuais, com presença ativa nas redes sociais e conteúdos que mostram os bastidores da produção.
Outro aspecto central é a relação com os autores. “Procuramos criar um vínculo. Não é uma relação impessoal”, explica Cláudia. Esse cuidado se reflete até na linguagem: os escritores publicados são chamados de “autores miau”, em referência ao universo felino que dá nome à editora.

Nome e impacto cultural
O nome Costelas Felinas tem uma origem curiosa. Surgiu a partir de um livro escrito por Cláudia ainda na adolescência, cujo protagonista era um gato. A capa trazia uma radiografia de suas próprias costelas — imagem que acabou batizando o projeto, mesmo sem a obra ter sido publicada.
Mais do que números, o impacto da editora aparece nas histórias que ajuda a construir. Há casos de lançamentos realizados em cidades sem livrarias ou bibliotecas, transformados em eventos culturais importantes para a comunidade. “Isso mostra como a literatura pode ganhar força mesmo longe dos grandes centros”, destaca Vieira.
Nesse contexto, as editoras independentes desempenham um papel fundamental na democratização do acesso à publicação. “Antes, tudo era muito concentrado em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje há uma descentralização que fortalece a cultura local”, avalia.
A marca de 50 mil exemplares, segundo os editores, veio como surpresa. “É um trabalho maior do que a gente. Só foi possível pela confiança dos autores”, afirma Cláudia.
E o futuro segue fiel à essência do projeto: continuar fazendo livros, um a um. “O que nos estimula é começar do zero todos os dias”, resume.


Nossa só temos a agradecer por ver essa matéria tão supimpa sobre nosso trabalho artesanal e independente.
É uma alegria saber que a literatura independente ainda tem seu espaço. 😻