Cena

Eber de Gois leva sua arte a galeria “gastronômica” em Santos

31/10/2025 Isabela Marangoni
Divulgação

Com cores, luzes e formas que convidam ao olhar atento, a Osteria Santos Sabores abre suas portas à arte regional e apresenta a exposição do artista plástico e arquiteto Eber de Gois, nome consagrado na cena cultural santista. A mostra, composta por 11 obras, reflete uma vida inteira dedicada ao desenho, à pintura e à poesia do olhar.

Aberta até o fim de dezembro, a exposição integra o projeto da casa de valorizar talentos da Baixada Santista, transformando o espaço gastronômico também em ponto de encontro com a arte local.

Natural de Santos, Eber construiu uma trajetória multifacetada, que une o rigor técnico da arquitetura à sensibilidade da pintura. Fascinado pelo desenho desde a infância, encontrou na arte uma forma de traduzir emoções e o cotidiano em cores e abstrações. Seu trabalho se destaca pelo uso de tinta acrílica sobre papel encorpado, técnica que desenvolveu com originalidade ao explorar efeitos de transparência e sobreposição — marcas registradas de sua produção. “Desde criança, o desenho me fascinava. Queria entender como aquilo se fazia”, recorda Eber.

Sem acesso a escolas de arte na época, o artista encontrou na Escola Pan-Americana de Arte, em São Paulo, a oportunidade de aprender por correspondência. A paixão pelo traço o conduziu naturalmente à arquitetura, profissão que exerceu com o mesmo olhar artístico. Formado pela Universidade Católica de Santos, participou de importantes projetos de interiores e obras, como a recuperação do edifício Martinelli, em São Paulo. “Eu olhava para os detalhes, para o desenho delicado — uma obra que hoje já não se faz mais”, relembra.

Mas a pintura nunca deixou de chamá-lo. Durante o período em São Paulo, frequentou ateliês e galerias como as de Gilberto Salvador e Aldemir Martins, e teve obras exibidas em espaços como a Caixa Cultural e o Citibank da Avenida Paulista, entre outras instituições.

Com o tempo, a arte visual passou a dialogar com as palavras. “A pintura é estática, mas eu queria que ela tivesse voz. Comecei a escrever poemas ligados aos desenhos”. Dessa fusão nasceu o livro “Poesia não é unanimidade”, lançado pela Realejo Livros.

Entre as experiências que moldaram sua estética está o período em que trabalhou no Rio de Janeiro com o designer Sérgio Rodrigues, no projeto do Moffarregi Scherito Hotel. “Ele disse que eu tinha um desenho de museu — algo rico, com profundidade”. A convivência com o mestre e as visitas a museus foram decisivas para ampliar seu repertório visual.

A obra de Eber dialoga com os desenhos sumiê e ideogramas japoneses, incorporando influências orientais, gestuais e um notável senso de liberdade. Versátil nas técnicas — lápis de cor, tinta acrílica, giz, papel ou tela —, o artista adapta o material ao que deseja expressar. Também leva sua arte para o espaço urbano, desenhando e escrevendo poemas na praia, onde vive, promovendo um encontro direto entre arte e público.

Arte e gastronomia

Ao receber a mostra, a Osteria Santos Sabores, localizada na Rua Dom Lara, 65, reafirma seu papel como espaço de difusão cultural. A casa, que une gastronomia e arte em um ambiente acolhedor, tornou-se referência na valorização de artistas regionais, promovendo o diálogo entre a boa mesa e as expressões culturais da cidade. “Acreditamos que arte e gastronomia caminham juntas, porque ambas despertam sensações e contam histórias. Abrir as portas da Osteria para artistas da região é uma forma de valorizar o que Santos tem de mais rico: o talento da nossa gente. Cada exposição transforma o ambiente e aproxima ainda mais o público da cultura local”, afirma Milene Amadeu, sócia do restaurante.

Aos 77 anos, Eber reflete sobre a vida e a arte com serenidade. A mostra reúne obras coloridas e vibrantes, algumas datadas de 2004, que ele descreve como “alegres, luminosas, cheias de vida”. “São obras que guardo com carinho, mas que já não me pertencem mais. Elas são do mundo”.

A exposição surgiu de forma espontânea — uma celebração do tempo e da trajetória. “O espaço é incrível para democratizar a arte. É uma simbiose: o artista, o público e o local ganham juntos”.

Sobre o processo criativo, o artista revela. “Alguns dizem que ‘baixou o santo’. O santo é a água, o ar, a luz, o som, o pássaro. Tudo te toma se você está aberto. Somos antenas do universo”.

E conclui, com a serenidade de quem faz da criação um modo de existir. “O que me motiva é respirar. A arte é o meu oxigênio. Você pode passar dias sem comer ou beber, mas sem oxigênio não sobrevive. A arte é a minha vida”.

A exposição pode ser visitada durante o funcionamento da Osteria Santos Sabores, com entrada gratuita, até o fim de dezembro — um convite a celebrar a arte, a vida e o olhar de quem transforma o cotidiano em poesia visual.