
Em uma ensolarada quarta-feira da década de 1920, Mrs. Dalloway – ou Clarissa Dalloway para os mais íntimos —, uma socialite inglesa vivendo no pós-Primeira Guerra Mundial, tomou a simples, porém simbólica decisão de comprar as próprias flores. Essa cena, que abre a obra publicada em 1925 pela escritora britânica Virginia Woolf, carrega o peso de um universo interior vasto e profundo. É também a inspiração para um dos eventos literários mais emblemáticos e afetivos de Santos: o Dalloway Day. Organizado por Jeanice Ferreira e Chris Ritchie, o encontro acontece no dia 21 de junho, a partir das 17 horas, na Igreja Anglicana de Todos os Santos, no bairro do José Menino.
Nesta edição especial, que celebra o centenário do livro, o Dalloway Day ganha como cenário a igreja, tombada como patrimônio, que traz uma atmosfera única para o evento. “A Cris conseguiu o espaço, e eu achei que tinha tudo a ver. O reverendo Josué Flores abraçou o projeto. Ele conduzirá um passeio pela igreja, explicando a construção, entre os anos de 1917 ou 1918, os vitrais… Será uma verdadeira ambientação para transportar o público ao tempo e espaço de Mrs. Dalloway”, explica Jeanice, idealizadora do evento.
O DIA “D”
O Dalloway Day Santos nasceu ainda em 2020, de forma íntima e artesanal, com o fanzine Adeline Zine — que estará disponível para venda no dia. “Eu faço tudo à mão, tudo escrito, é um trabalho artesanal”, conta Jeanice, que se aproximou de Virginia Woolf por inquietação literária. “Eu lia muito, mas percebi que a maioria eram autores homens. Poucas mulheres. O ponto de virada foi o conto ‘O Vestido Novo’, em que uma jovem escolhe um vestido vitoriano para uma festa, só para perceber que destoa ao chegar. Dessa narrativa surgiu toda a ideia do projeto ‘Vestidos para Virginia’”.
O primeiro encontro aconteceu em 2023, na Associação Cultural José Martí, com leituras e muitas conversas entre mulheres. “Foi incrível, apareceram pessoas que eu nem esperava”, relembra Jeanice. Em 2024, o Dalloway Day aconteceu na Livraria Realejo e na Cinemateca de Santos, onde foi exibido o filme ‘Mrs. Dalloway’ (1997). “Este ano vamos repetir a parceria com a Cinemateca, exibindo ‘As Horas’ (2002), baseado no romance de Michael Cunningham, que também se inspira em Virginia Woolf. Nicole Kidman interpreta Virginia, e eu acho o filme simplesmente belíssimo”, comenta.
Na sua terceira edição, o evento dá um salto e inclui, pela primeira vez, uma oficina de escrita criativa, além da tradicional leitura de trechos, palestra, exibição de filme e o clássico chá literário. “A oficina é um convite para que, após absorver tantos sentimentos e pensamentos, os participantes escrevam algo significativo para si”, explica a escritora Chris.
Além das discussões literárias, o evento propõe um olhar estético e simbólico sobre a obra. “As flores são parte essencial da nossa identidade visual. Indissociáveis da presença feminina, representam o esplendor e a finitude — onde tudo começa e onde tudo pode terminar”.
EVENTO SOLIDÁRIO
A escolha da igreja para sediar o evento vai além do aspecto visual: metade da arrecadação será destinada à conservação do patrimônio. “É mais que um evento literário. É sobre história, memória, sobre olhar para o passado para compreender o presente”, reflete Jeanice. “Virginia falava do pós-guerra, da epidemia de influenza, de conflitos e silenciamentos. E hoje vivemos algo parecido: acabamos de sair da pandemia e o mundo enfrenta inúmeros conflitos”.
A programação inclui chá da tarde, palestra, leituras selecionadas da obra e rodas de conversa. “A palestra vai contextualizar Virginia Woolf — sua vida, o momento histórico e as temáticas que aborda: guerra, papel feminino, silêncios. Será uma introdução para instigar a reflexão”, explica Jeanice. “Acredito que a leitura pode transformar a gente, começar por nós mesmos”.

SIMBOLISMO
Formar leitores é uma missão do evento. “Sou professora e penso sempre em como aproximar mais pessoas da leitura. Muitos acham Virginia inacessível, mas ela é densa e, ao mesmo tempo, profundamente humana. A frase ‘Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores’ carrega múltiplos significados — sobre classe, autonomia, cotidiano, escolha”, comenta Chris.
O romance aborda ainda temas como memória, guerra, rotina e envelhecimento. “Quando Clarissa sai para comprar as flores, ela começa a rememorar um passado inteiro de juventude”, explica Jeanice.
PROGRAMAÇÃO ESPECIAL
Além das atividades do dia 21, o Dalloway Day inclui dois eventos paralelos: a exibição do filme ‘As Horas’ na Cinemateca de Santos, no dia 20 de junho, e um encontro na Livraria Realejo, no Gonzaga, dia 18 de junho, às 19 horas, ambos gratuitos. A programação é aberta a pessoas a partir de 14 anos. “Não é preciso ter lido o livro para participar. É um evento de afeto, reflexão e imersão”, reforça Jeanice.
Para quem quiser se aprofundar, a editora Nós oferece um cupom especial: dallowaydaysantos, com 20% de desconto em Mrs. Dalloway e em qualquer obra de Virginia Woolf.
Mais informações podem ser encontradas no Instagram @dalloway.day ou pelo WhatsApp (13) 9822-97186. Os convites custam a partir de R$ 80 e podem ser adquiridos via PIX na chave 55671911/0001-32.
No fim, o Dalloway Day vai além de uma celebração literária: é uma homenagem à sensibilidade, à memória, ao tempo e à beleza oculta nas pequenas decisões. “A vida está acontecendo. As festas estão acontecendo. As flores estão sendo compradas. E é por isso que a gente lê Virginia Woolf”, conclui Chris.


Maravilha! Que eventos dessa natureza possam se multiplicar na cidade!