
Em sua segunda edição, congresso reuniu especialistas de todo o país no Valongo
** Josi Castro e Mariana Nerome
Ampliar o conhecimento sobre os diferentes usos da Cannabis. Em sua segunda edição, Congresso Crema reuniu especialistas de todo o país para debater a utilização da erva para fins medicinais e de bem-estar, além de apresentar ao público os diversos usos e produtos da planta e abrir espaço para o diálogo e o esclarecimento sobre temas como saúde, legislação e empreendedorismo.
Para a organizadora do evento, Larissa Gonçalves, o Crema nasceu da demanda por tratamentos complementares na região. “É muito importante que a gente consiga reconhecer como um espaço legítimo para discutir uma necessidade da população em saúde”, declarou.
Estruturado em quatro eixos principais – medicinal, comercial, justiça social e cultivo – o congresso inclui palestras, mesas temáticas e painéis com a participação de profissionais reconhecidos no Brasil. Os assuntos debatidos envolveram política pública e uso medicinal, saúde mental, desigualdade e política de drogas, associativismo, cultivo, justiça climática, qualidade de vida, evidências científicas, perspectivas no tratamento de doenças degenerativas, cuidado, bem-estar e direito de plantar.
Autor da lei que garante o fornecimento da Cannabis medicinal no SUS, o deputado estadual Caio França (PSB) atualizou o público sobre os avanços e desafios da legislação. Ele apontou que, na primeira fase da lei, apenas Síndrome de Lennox Gastaut, Síndrome de Dravet e Esclerose Tuberosa estão contempladas. “Minha expectativa é que a gente inclua mais patologias. Inclusive, esta foi a pauta da nossa última reunião da Frente Parlamentar na Assembleia Legislativa. A gente cobrou o secretário de Estado para que ele possa ter um olhar mais empático por esse tema”.
Primeira médica a prescrever a forma medicinal da cannabis, a psiquiatra Eliane Nunes destacou a grande dificuldade em ampliar este tripo de tratamento a quem realmente precisa. “Ainda hoje tem muito preconceito, especialmente contra os médicos prescritores de óleos artesanais”, disse. Diretora-geral da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis Ativa, primeira entidade multiprofissional que busca pesquisa acadêmica na área, Nunes indicou o uso do óleo de canabidiol (CBD), em 2015, para uma criança com transtorno do espectro autista (TEA), com aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Usos comerciais
Mas nem só de uso medicinal vive a Canabis. Embora no Brasil seja mais conhecida como um entorpecente e seu plantio esteja restrito ao uso medicinal, mediante liberação judicial, a planta é 100% aproveitável. É do extrato da flor que é extraído o CBD, mas do seu bagaço pode ser extraídos os terpenos – substância que marca e realça o gosto e o odor dos frutos e das plantas – e manteigas medicinais, e sua fibra pode ser usada na industria têxtil, por sua característica de resistência e durabilidade. E foi justamente representantes desses produtos que estiveram presentes na feira realizada dentro do Congresso.
É o caso da Queen Co, empresa que produz tecidos com fibras naturais misturadas ao algodão, incluindo o cânhamo, como a cannabis também é conhecida. “Além de ser uma matéria-prima super-regenerativa e saudável para o solo, a fibra é oito vezes mais resistente a tração e tem quatro vezes mais durabilidade, comparada aos tecidos de algodão”, atesta Renata Lima, que representa a marca na Baixada Santista. “É um excelente isolante térmico, resistente a raios UV, é um tecido respirável, resistente ao mofo e tem amplo uso. Ainda no paralelo do cultivo com o algodão, seu processo de beneficiamento gasta-se 75% menos água, é uma planta que cresce em qualquer lugar e que beneficia o solo, com ciclos curtos, de três a quatro meses do plantio a colheita, o que é metade do tempo, e não é necessário uso de pesticidas ou agrotóxicos pois ela mesma é repelente a pragas. Ou seja, só vantagem”, revela. No estande da marca era possível ver e comprar peças de vestuário produzidas em colaboração com uma cooperativa de costureiras da região. “E dessa parceria nascerá uma grife”, avisa a empresária.
Na onda dos terpenos, a “Laralitos” apresentou sua produção de brigadeiros e alfajores funcionais. “Não é só para realçar sabores. Assim como acontece na aromaterapia, há terpenos para tudo. Uns ajudam no foco, outros acalmam a ansiedade, alguns ainda podem dar mais disposição. E é um excelente coadjuvante para quem faz uso do óleo de cannabis para tratamentos de saúde”, revela Nathalie Beverari Cavachaini, CEO da empresa.
No estande d’ “A Gloriosa Pimenta”, haviam condimentos e geleias e parte de sua linha de produtos contem terpenos derivados da cannabis, completamente livres de CBD e Tetrahidrocanabidol (THC), que é a substância entorpecente da planta. Na feira, a linha de mostardas, catshupes e geleias de pimenta movimentou o faturamento. “São produtos de excelente qualidade que nada perdem ao que existem no mercado. Mas nossa linha é mais diferenciada na variedade e no sabor”, garante Lucas Sester, que é representante da marca na Baixada Santista.


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