
O coro cênico Céu da Boca, formado exclusivamente por mulheres da educação pública de Santos, celebra 20 anos de trajetória em 2025 com um convite especial: representar o Brasil em uma turnê por Portugal. Nos dias 10 e 11 de outubro, o grupo abrirá o Fórum Esferas, evento que promove o diálogo entre arte, meio ambiente e educação, na Universidade de Coimbra.
A agenda inclui apresentações em ao menos cinco cidades portuguesas, em uma viagem que mescla música, poesia e cênica com forte identidade literária e feminina. Para viabilizar a turnê, o grupo busca apoio financeiro por meio de uma campanha virtual. “Somos um coro só de mulheres, um coletivo de professoras, e esse trabalho é raro no Brasil”, explica Ivanilde Passos, idealizadora e diretora do grupo. “Trabalhamos a voz falada, a cantada, o gesto, o corpo… porque tudo isso reverbera na sala de aula”.
DA SALA DE AULA AO PALCO
O Céu da Boca surgiu do ‘BrinqueMUSICAndo’, projeto de musicalização para bebês, criado há 23 anos por Iva, servidora da Secretaria de Educação de Santos. “Na época, olhava para aquelas mulheres envolvidas e pensava: ‘que mulherada incrível’. Foi aí que nasceu a ideia de criar um coro só de professoras”.
Desde então, o grupo cresceu e se transformou. Mais do que cantar, o Céu da Boca encena espetáculos que combinam literatura, movimento, identidade e emoção. A estética foge dos padrões dos corais tradicionais: há cenas, figurinos individualizados, objetos cênicos, composição corporal e direção poética. “Nosso coro é criativo, cada uma busca seu gesto, sua expressão. É uma construção coletiva, cuidadosa e respeitosa com o corpo de cada integrante”, destaca Iva.
POÉTICAS EM CENA
Para a turnê em Portugal, o grupo levará dois espetáculos. Um deles é inspirado em poetas lusófonos como Fernando Pessoa, Florbela Espanca e Miguel Torga, com ambientação marítima e trilha de fados contemporâneos. O outro mergulha na memória e força das mulheres do Vale do Jequitinhonha, com referências a Cora Coralina e Thiago de Mello. “Levamos a poética do mar, do que vai e do que volta. No outro, somos lavadeiras do Vale, com bacias, moringas e santos em cena. Tudo tem um significado: dos poemas ao som dos sapatos, feitos à mão pelo ateliê de Fernando Pires, para imitar o movimento das ondas”, conta Iva.
RECONHECIMENTO E RESISTÊNCIA
Apesar da solidez da trajetória, o grupo ainda é pouco conhecido em sua cidade natal. “Muita gente em Santos nem sabe que existimos. Já nos apresentamos em diversos estados brasileiros, mas aqui, muitas vezes, não temos estrutura para mostrar o espetáculo como ele realmente é. Mesmo assim, adaptamos, porque acreditamos na arte como ferramenta de transformação”.
O convite para participar do Fórum Esferas veio após uma apresentação em 2024, na Universidade Santa Cecília, com o espetáculo ‘Todas as noites ouço que gemem as águas’. A recepção foi tão forte que resultou no convite para Coimbra — e, em seguida, outras cidades portuguesas também demonstraram interesse: Cantanhede, Figueira da Foz, Aveiro, Golegã e, possivelmente, Porto.
Para viabilizar a viagem de 28 pessoas — entre cantoras e equipe técnica —, o grupo estima um custo de cerca de R$ 200 mil. O valor cobre passagens, hospedagem, alimentação, músicos, técnicos de som e luz, figurinistas e fonoaudiólogos. “Se eu tivesse R$ 100 mil agora, já daria um grande fôlego. Estamos fazendo rifa, vendendo figurinos, pedindo apoio. Seguimos com garra”.
EDUCAÇÃO E ARTE
O projeto é atravessado por um propósito: a união entre arte e educação. “Meu papel é de formadora. Quero que nas salas de aula exista música, corpo, movimento, literatura. E queremos levar isso também às comunidades, cantar na periferia, oferecer oficinas. A arte precisa ultrapassar os muros da escola”.
Essa entrega é o que mantém o grupo vivo. “Tem dia que chegamos mortas de cansaço, depois de um dia inteiro de trabalho. Mas basta começar o ensaio, e tudo muda. A gente canta, dança, deita e levanta. É isso que nos alimenta. Sem arte, tudo fica muito árido”.
MULHERES EM CENA
A força feminina sustenta o Céu da Boca. A maioria das integrantes atua na educação infantil. “Até tivemos alguns homens no início, mas não rolou. Seguimos só com mulheres e isso é sensacional. Somos ágeis, criativas, adaptáveis”.
Mesmo com idades entre 30 e 60 anos, todas se entregam fisicamente às cenas. “Tem uma em que entramos com barcos, imitando o mar. As pessoas se encantam com os corpos dessas mulheres, com o que conseguimos construir juntas”, diz. “Queremos circular, expandir, levar o nome de Santos com orgulho e mostrar que é possível fazer arte de qualidade com mulheres da educação pública. Isso é resistência”.
COMO AJUDAR
As apresentações acontecem nos dias 10 e 11 de outubro, em Coimbra. Até lá, os ensaios seguem firmes: três vezes por semana, com quatro horas de duração. “Feriado? Nem pensar. A gente só vai parar quando embarcar para Portugal”.
Até o momento, o grupo arrecadou cerca de R$ 18 mil. Para apoiar financeiramente a viagem, acesse o Instagram @corocenico.oficial. A vakinha virtual aceita qualquer valor. “A gente sempre diz sim. O sim vem antes do não. Porque a vontade de fazer dar certo é maior”.


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