Cena

Compositores transformam samba santista em hino oficial

09/02/2026 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

Com uma ligação profunda com o samba e o Carnaval, o cantor e compositor Ricardo Peres é, ao lado de Adriano Godoy, autor do hino da Liga das Escolas de Samba de Santos (LICESS). A obra, que nasceu quase como uma brincadeira entre amigos, acabou oficializada como símbolo do samba santista. Em 2026, o hino ganhou uma nova versão, atualizada para exaltar as 15 escolas que desfilam na Passarela Dráuzio da Cruz nos dias 6 e 7 de fevereiro.

A letra funciona como uma viagem afetiva pelo território do Carnaval da região, costurando histórias, personagens e memórias das agremiações. “Se você pegar a letra, comecei lá no Guarujá, na Amazonense, e vim para cá. Passei pela X-9, pela Brasil, exaltando personagens e histórias de cada escola”, explica Ricardo.

Entre as referências estão sambas históricos e nomes fundamentais da festa. Ao citar a Amazonense, ele presta homenagem aos autores do emblemático samba de 1982. “Era um samba que, na época, parou a cidade. Fiz questão de falar do Djaca e do Benê da Rosalina”. O retorno veio de forma especialmente emocionante. “A filha do Benê me escreveu um e-mail agradecendo. Disse que nunca ninguém tinha exaltado o pai dela daquela forma”.

Símbolo oficial
A projeção do hino começou em 2013, quando a música passou a abrir e encerrar as transmissões dos desfiles realizadas pela TV Tribuna. “O Eduardo [Silva] mantinha o samba todo ano e só mudava as imagens”, relembra.

O reconhecimento oficial veio em 2018. “O Ditinho, então presidente da Liga, junto com o Luiz Roberto Martins, o Pelé, homologaram o samba como Hino da Liga das Escolas de Samba de Santos. A diretoria aprovou e ele passou a fazer parte do estatuto”.

Com o passar dos anos, o Carnaval mudou — e a letra precisou acompanhar esse movimento. Escolas deixaram de existir, outras surgiram. “Tive que refazer trechos, trocar nomes, ajustar versos. Hoje o samba está completamente atualizado, com as 15 escolas: oito do Grupo Especial e sete do Grupo de Acesso”.

Mesmo ligado à União Imperial, Ricardo afirma que sempre teve o cuidado de não privilegiar sua própria agremiação. “Eu termino o roteiro na União e coloco ‘verde e rosa de fé’, que é a minha escola, mas sem exaltar mais do que as outras”.

A ligação com a União Imperial vai além da música e se confunde com a própria trajetória de vida do compositor. “Eu sempre digo: eu mudei um pouquinho a vida da União Imperial, mas a União Imperial mudou toda a minha vida”. Para ele, essa troca traduz o papel transformador das escolas de samba.

A versão mais recente do hino foi regravada com intérpretes das próprias agremiações. “São todos cantores das escolas. É um trabalho árduo, porque representa o esforço deles durante o ano inteiro”.

Instinto e poesia
Ricardo define seu processo criativo como essencialmente intuitivo. “Eu não estudei música. Faço por instinto. Vou gravando, cantando, testando frase por frase. Música é poesia encaixada na melodia”.

Com mais de 40 anos de trajetória, ele relativiza a ideia de sucesso. “Tem música que você ama e ninguém liga. Tem música que você nem gosta tanto e todo mundo ama. Existe uma máxima: sucesso é Deus que manda”.

Ao analisar o Carnaval de Santos hoje, Ricardo reconhece avanços estruturais, mas aponta a falta de visão estratégica. “Mudou para melhor. A estrutura é muito mais organizada. Mas falta tratar o Carnaval como produto turístico, como investimento que dá retorno”.

Para ele, o impacto da festa vai muito além da avenida. “As pessoas não imaginam. Você coloca duas mil pessoas desfilando, multiplica por quatro da família, já são oito mil. Depois vem o universo paralelo: costureiras, artesãos, gente trabalhando o ano inteiro para fazer aquela ‘maluquice’ dar certo”. Um movimento que gera renda, pertencimento e identidade cultural.

Ricardo acredita que Santos ainda não atingiu todo o seu potencial carnavalesco. “O Poder Público precisa descobrir que o Carnaval de Santos é um produto vendável e que tem um enorme potencial”. Ele cita exemplos como o Festival de Parintins, no Amazonas, e a Oktoberfest de Blumenau, ambos frutos de investimento contínuo e visão de longo prazo.

Escola da vida
A defesa da memória cultural aparece também em outras composições, como ‘Santos, obra-prima da Mãe Natureza’. “O Rio tinha ‘Cidade Maravilhosa’, São Paulo tinha ‘Sampa’, e Santos não tinha uma música popular. Eu fiz”.

Para Ricardo, a escola de samba é, literalmente, uma escola. “A maioria dos compositores nasce dentro dela. Aprende a tocar, cantar, compor, dançar”. Ele próprio é exemplo desse percurso. “Comecei no chocalho, depois surdo, agogô, harmonia. Virei diretor, compositor, cantor. Tudo aprendi lá dentro”.

Mesmo com ressalvas, ele reforça o papel social das agremiações. “Hoje a quadra é um ambiente familiar. A escola de samba é mais um trampolim social do que uma perdição. Ela encaminha, acolhe, ensina”.

Às vésperas de mais um Carnaval — em um ano simbólico, marcado pelos 50 anos da União Imperial — a expectativa se renova. “Todo Carnaval é um filho novo”. Homenageado na avenida, Ricardo resume sua trajetória com emoção. “Sou engenheiro mecânico e professor de educação física, mas foi a escola de samba que mudou toda a minha vida”.

E conclui. “A escola de samba ensina profissão, tira gente da exclusão e movimenta uma cidade inteira. O samba não vai morrer enquanto existir uma escola de samba para destilar alegria”.