Cena

Clube dos Inconvenientes é celebração à vida e à amizade

21/06/2025 Gustavo Klein
Fernando Yokota

Toda segunda quarta-feira do mês, por volta das sete da noite, um restaurante qualquer de Santos se transforma, sem aviso prévio, no palco de uma celebração que já dura mais de quatro décadas. É noite de reencontro do lendário Clube dos Inconvenientes — um grupo de senhores (quase todos rotarianos, todos absolutamente dedicados à arte da boa amizade) que mantém, desde 1984, uma tradição onde o bom humor e a fraternidade são levados a sério.

A cada mês, um dos membros assume a missão de escolher o restaurante (sempre um diferente) e organizar o encontro, com direito a surpresas no cardápio, tentativas de pontualidade e, claro, a presença garantida da bandeira, da camisa, do logotipo e do grito de guerra que ninguém esquece. A presença, para quem estiver na cidade, é obrigatória, para os antigos sócios e também para os novos, que se juntaram ao grupo nos últimos anos.

O Clube, afinal, é uma instituição — não formal, mas imensamente afetiva — onde a amizade se renova entre pratos, lembranças e ótimas histórias.

Eu, o diretor Leopoldo Figueiredo e o repórter-fotográfico Fernando Yokota nos encontramos com eles na última reunião, no dia 11 de junho. A turma, animada e barulhenta, se encontrou no restaurante do Tênis Clube de Santos. Entre comidas, bebidas e muitas gargalhadas, batemos com eles um longo papo que se transformou nesta página, um relato fiel de tudo o que vimos e ouvimos do presidente atual do grupo, Charles Dias, e de sócios como o empresário Victor de Souza, o campeão mundial Clodoaldo e alguns dos fundadores do grupo: José Francisco Rollemberg, João Carlos Grottone, Henrique Lellis e Edmundo Mendonça.

RISO CONTAGIANTE

As gargalhadas enchem o ambiente com tanta alegria que, em vez de incomodar, contagiam. Há algo de profundamente generoso no jeito como esses amigos se reúnem: não há vaidade, disputa ou pose — só o desejo sincero de estarem juntos, como vêm fazendo há 41 anos, com espírito jovem e coração aberto. As esposas, práticas como são, fundaram há tempos um grupo à parte, muito mais organizado, mas possivelmente menos divertido (embora ninguém ouse dizer isso em voz alta).

O oftalmologista João Carlos Grottone é um dos Inconvenientes mais antigos e presentes. Ele conta que o grupo tem sido fundamental, tanto nos momentos felizes quanto nos perrengues e nos momentos mais emocionantes por que passaram ao longo destas quatro décadas.

CAFÉ COM PERNAS

O Clube dos Inconvenientes também tem seus causos de viagem — histórias que já viraram folclore. Na única “missão” internacional, o grupo foi a Santiago, no Chile. Chegaram muito cedo e, como o check-in no hotel ainda demoraria, aceitaram a sugestão do guia local de visitar o famoso Café con Piernas — uma cafeteria onde o café é servido por moças de pernas à mostra, como o próprio nome sugere. A intenção era só “conhecer a cultura local”.

Mas um dos membros do grupo achou a experiência muito interessante e pediu cinco cafés. O excesso teve efeito imediato. Ao chegar ao hotel, em estado crítico, pediu desesperado para ser o primeiro a pegar a chave do quarto. Subiu correndo, viu uma porta aberta, aliviou-se e ainda elogiou o hotel pelos perfumes deixados sobre a pia, que usou para disfarçar a tragédia.

O problema é que o quarto não era dele. Os verdadeiros hóspedes encontraram a porta escancarada, um estranho saindo do banheiro e um leve aroma de colônia misturado com… consequências. Dizem que esse integrante do clube, mesmo sem perder a elegância, teve que descer rapidamente e com a dignidade um pouco abalada, mas ainda intacta o suficiente para dar risada da própria desventura no jantar daquela noite.

CORAL PORTUGUÊS

Em outra viagem do grupo, os Inconvenientes decidiram subir a serra para prestigiar o Festival de Inverno de Campos do Jordão e à residência de inverno do governador — que, na época, era Mário Covas, conterrâneo santista. Ao chegarem, foram barrados mas, quando perguntados se faziam parte do coral que se apresentaria naquela tarde, alguém respondeu: “Sim, claro!”. E assim entraram.

O que eles não esperavam é que o próprio Covas aparecesse pouco depois. Ao reconhecer os velhos amigos dos tempos de colégio, caiu na risada com a cena — um grupo de senhores, sem nenhuma aptidão vocal evidente, se passando por coralistas para entrar no palácio. O reencontro virou uma festa improvisada, cheia de histórias e risos. O governador, que geralmente era sisudo, não conseguiu segurar o riso.

A FORÇA DA AMIZADE

Ao longo de 41 anos de encontros, viagens, histórias e risadas, o Clube dos Inconvenientes se transformou em algo muito maior do que um grupo de amigos que jantam juntos uma vez por mês. É um abrigo. Um território afetivo onde ninguém precisa provar nada, onde cada um pode ser exatamente quem é — com suas manias, seus tropeços, suas histórias. A convivência fraterna é um gesto silencioso, porém poderoso, de resistência emocional.

A amizade que une os Inconvenientes cumpre um papel essencial: mantém acesa a chama do pertencimento, da escuta, do riso gratuito, da leveza possível mesmo nos dias mais pesados. O bom humor — ingrediente central da receita — é o elo invisível que os aproxima, o mesmo que faz com que filmes como Meus Caros Amigos e Quinteto Irreverente, de Mario Monicelli, sigam encantando gerações.

Porque ver amigos rindo juntos, convivendo, celebrando a amizade e a vida e se metendo em confusões juntos, é lembrar que viver pode ser mais simples — e infinitamente mais divertido — quando se tem com quem rir, principalmente de si mesmo.