Cena

Cinema de horror brasileiro tem história, mas legado pouco visto

01/11/2025 Paulo José
Divulgação

A terra do samba, futebol e praia também abriga um cinema que encara a violência, o medo e o sobrenatural. O Brasil não tem fama de tradição no horror, mas a história do gênero no país é antiga e ajuda a entender o Brasil, segundo a professora e pesquisadora de cinema de terror Laura Cánepa, da UNIP. Para ela, o diferencial do terror brasileiro é que ele não é alienado, dialogando sempre com questões sociais, com seu tempo e com conflitos de classe, trabalho e gênero. Os filmes do gênero no país trazem temas reconhecíveis do momento histórico em que são feitos, com terror adaptado para questões próprias do Brasil, o que o torna único dentro do cinema mundial.

Para Cánepa, o nascimento oficial do terror no país ocorre com À Meia Noite Levarei Sua Alma, de 1964, dirigido e protagonizado por José Mojica Marins. É o surgimento de Zé do Caixão, figura marcante com sua capa preta, unhas longas e discursos provocadores sobre a morte e o sentido da existência. No filme, o personagem é obcecado por gerar um filho considerado perfeito, alguém que simbolize a continuidade de sua vida e de seu sangue. Mojica cria um pacto claro com o público em torno do gênero, fazendo do terror um produto pensado para quem consome esse tipo de cinema. Apesar disso, o reconhecimento internacional só veio nos anos 1990, quando os filmes foram lançados em VHS nos Estados Unidos. A partir dessa circulação, Zé do Caixão se torna Coffin Joe e passa a ser reverenciado por fãs do horror mais radical. Artistas ligados ao gênero, como Rob Zombie, reconhecem Mojica como um dos pioneiros do terror de impacto.

Antes de Zé do Caixão

Antes de Mojica, porém, já existiam filmes brasileiros com elementos do horror. Em 1936, a comédia Jovem Tataravô, de Luís de Barros, apresenta um espírito que surge como ameaça a ser despachada para o além, algo raro na época.

No começo dos anos 1950, surgem obras que tratam de perigo e situações pesadas, mas que não se assumem como terror. Um destaque é Alameda da Saudade, de 1951, dirigido por Carlos Ortiz e filmado em Santos. A trama conta a história de um homem que se apaixona por uma jovem em um baile e descobre que ela estava morta havia muito tempo.

Dominado pela paixão, decide visitá-la no cemitério e tirar a própria vida para ser enterrado ao seu lado. A obra tem estrutura de terror, com assombração e tragédia, mas não se vendeu como tal, permanecendo como produção independente com circulação limitada. Encontrar cópias é difícil. Conhecem-se o roteiro e materiais guardados na Cinemateca Brasileira. Mesmo esquecido, o filme tem importância por ser um dos primeiros exercícios do gênero no país.

Após o impacto dos filmes de Zé do Caixão, o horror brasileiro se aproxima da pornochanchada. A produção aumenta e o público também. Nos anos 1970, alguns títulos ultrapassam 1 milhão de espectadores, e o terror vive seu período de maior circulação popular. O diretor português radicado no Brasil, Jean Garrett, torna-se um nome importante com obras que combinam erotismo e elementos sobrenaturais, prática frequente do período.

Retomada

Nos anos 1990, durante a retomada do cinema brasileiro, o terror perde espaço diante de outros gêneros que buscavam recuperar público e financiamento. Porém, a virada do século traz novo impulso. O barateamento das câmeras digitais facilita a produção e surge uma geração de cineastas que cresceu consumindo filmes de terror. Com isso, o gênero se espalha e aparece tanto em obras que se reconhecem claramente como horror quanto em filmes que usam seus elementos como parte da narrativa.

Entre os diretores que se dedicam ao terror de forma direta, destacam-se Rodrigo Aragão, com histórias envolvendo bruxaria e lendas brasileiras, e Paulo Biscaia Filho, com tramas sobre ciência e morte. Outros criadores incorporam o horror como atmosfera e metáfora das tensões sociais, como em Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas, e O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho.

Mesmo quando não se apresenta como terror, o gênero se torna parte fundamental da formação desses cineastas e um elemento recorrente no cinema nacional contemporâneo.