Inclusão

Cine Azul promove inclusão sensorial e social no cinema

05/07/2025 Isabela Marangoni
Reprodução/Envato

Luzes acesas, som reduzido e liberdade para se movimentar e se expressar: assim são as sessões do Cine Azul, iniciativa que vem transformando a experiência cinematográfica na Baixada Santista. Realizado em parceria com o Cine Roxy e o grupo Inclusão para Todos, o projeto adapta salas de cinema para acolher crianças com deficiência, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias, promovendo o acesso à cultura.

Inspirado em ações similares já realizadas no Brasil e no mundo, o Cine Azul chegou à região por meio do Grupo Inclusão para Todos que se comprometeu com os direitos das pessoas com deficiência. As sessões são cuidadosamente pensadas para atender principalmente crianças e adultos com TEA, Síndrome de Down e outras condições que demandam estímulos sensoriais reduzidos ou maior liberdade de locomoção.

Mais do que uma ação pontual, o Cine Azul tem se consolidado como uma das iniciativas mais sensíveis e transformadoras do circuito cultural local. Presente em eventos como o Santos Film Fest, o projeto acontece em parceria com o coletivo Inclusão para Todos, liderado por Priscila e Francisco José Moreira da Silva Junior, moradores da Zona Noroeste de Santos e pais de uma menina autista. “As sessões são adaptadas para crianças com distúrbios sensoriais e funcionam como uma extensão das terapias multidisciplinares”, explica Francisco, presidente do grupo.

A ideia surgiu a partir da crescente demanda de famílias com crianças com TEA, com o objetivo de garantir acesso a espaços historicamente negados a essas pessoas. “Queremos ocupar espaços antes inimagináveis, que são seus por direito — e de forma permanente”, afirma.

Para muitas famílias, o Cine Azul representa a única chance de ir ao cinema no ano. “Participam muitas famílias em situação de vulnerabilidade. Às vezes é a primeira experiência delas na sala. É um projeto de cinema, formação e inclusão”, destaca André Azenha, cineasta e organizador do Santos Film Fest.

Além do entretenimento, o projeto também atua como rede de orientação e apoio. “O objetivo é auxiliar na adaptação ao ambiente e orientar os pais para lidar com situações de crise”, explica Azenha. O grupo Inclusão para Todos também realiza atividades durante o ano, como caminhadas, festas e encontros que fortalecem os vínculos familiares e a convivência social.

A capacitação da equipe é outro diferencial: todos os funcionários do cinema passam por formação específica. “Recebem informações e orientações para acolher com respeito, independentemente da condição da criança. O envolvimento do Cine Roxy foi essencial”, completa Francisco. “Eles entenderam que é um resgate à cidadania dessas pessoas”.

O impacto é visível. Sessões já reuniram até 240 pessoas. E os relatos são emocionantes. “Uma mãe veio com o filho cinco vezes. Nas primeiras, ele ficava apenas cinco minutos. Hoje, assiste ao filme inteiro. A alegria dela é a nossa”, conta Francisco.

ESCOLHA DOS FILMES

Os títulos são escolhidos a partir do interesse do público. “Eles querem ver o que está em cartaz, como todo mundo. Agora, por exemplo, foi ‘Lilo & Stitch’. Conversamos com o cinema e a distribuidora, que geralmente acolhem com sensibilidade”, diz Azenha. As reações são comoventes. “Há sempre alguém que está entrando no cinema pela primeira vez. É uma chance rara para essas famílias. São momentos marcantes, que ficam”.

Os depoimentos de mães e pais são registrados e compartilhados, ampliando o alcance das vivências. “É uma troca valiosa. O cinema toca, emociona e inspira”, comenta Azenha.

PERIODICIDADE

Durante o Santos Film Fest, geralmente são realizadas duas sessões do Cine Azul — uma em Santos e outra em São Vicente. Fora do festival, o Cine Roxy mantém sessões mensais. “Uma vez por mês é uma frequência que permite planejamento para as famílias”, observa Azenha.

O público do projeto também tem se integrado a outras atividades do festival. “Este ano, famílias do grupo estiveram na abertura, em pré-estreias… A presença está se ampliando”.

INCLUSÃO COMO MISSÃO

Para Azenha, a inclusão é parte indissociável do trabalho cultural. “Já fazíamos sessões com a ONG Tantan, com o projeto Empresto Minhas Pernas… É um compromisso de quem trabalha com cultura abrir espaço para a diversidade”, afirma. “A sociedade é diversa e o cinema também deve ser”.

IMPACTO SOCIAL

A repercussão do Cine Azul também tem mobilizado parlamentares sensíveis à causa. “Vereadores como Audrey Kleys, Débora Camilo, Cláudia Alonso, Sérgio Santana têm apoiado. O fórum de inclusão na Câmara foi uma das ações importantes”, lembra Azenha.

Segundo ele, o projeto faz parte de um movimento mais amplo. “A inclusão está ganhando espaço. Políticos comprometidos com uma sociedade justa estão começando a entender isso. Já temos filmes com audiodescrição, salas acessíveis, obras que abordam a diversidade… É um processo que precisa ser contínuo”.

As sessões são gratuitas e viabilizadas por meio de emendas parlamentares. A intenção é expandir o projeto para outras cidades da região. “O Santos Film Fest tem assumido esse papel com seriedade e compromisso”, elogia Francisco. “A cultura transforma. O Cine Azul acolhe, fortalece vínculos, cria laços de amizade e resgata a autoestima das famílias. É um passo decisivo para que essas crianças ocupem todos os espaços — com autonomia, dignidade e alegria”, conclui.