Cena

Chevy Chase e Steve Martin: os reis da comédia da década de 80

08/10/2025 Gustavo Klein
Divulgação

Nos anos 1980, quando o cinema ainda era uma experiência coletiva e as fitas VHS reinavam nas locadoras, dois nomes se destacavam nas prateleiras de comédia: Chevy Chase e Steve Martin. Com estilos distintos — Chase com seu humor físico e sarcástico, Martin com sua veia absurda e refinada — eles não apenas dominaram o gênero, mas o reinventaram. Eram os reis da comédia americana, e seus filmes se tornaram rituais domésticos de gargalhadas em família.

Chevy Chase, nascido Cornelius Crane Chase, começou sua trajetória como um dos membros fundadores do Saturday Night Live, em 1975. Foi lá que cunhou seu bordão “Eu sou Chevy Chase e você não é”, uma sátira aos âncoras de telejornal que virou símbolo de sua persona cômica: arrogante, desajeitada e irresistivelmente engraçada. Seu humor físico, muitas vezes baseado em quedas, caretas e situações absurdas, encontrou terreno fértil no cinema com Férias Frustradas (National Lampoon’s Vacation, 1983), onde interpretava Clark Griswold, o pai otimista que insiste em transformar cada viagem em uma epopeia familiar — e desastrosa. A franquia rendeu várias sequências, como European Vacation, Christmas Vacation e Vegas Vacation, todas com Chase no papel do patriarca que nunca desiste.

Outro marco de sua carreira foi Fletch – O Repórter Vigarista (1985), onde viveu Irwin Fletcher, um jornalista investigativo que se disfarça de tudo e todos para desvendar crimes. Com diálogos rápidos e situações inusitadas, o filme virou cult e consolidou Chase como um mestre do timing cômico. Em Clube dos Pilantras (Caddyshack, 1980), seu personagem Ty Webb era a personificação do sarcasmo zen, jogando golfe com frases filosóficas e olhares blasés. Chase também brilhou em Parece Que Foi Ontem (Seems Like Old Times, 1980), ao lado de Goldie Hawn, e no ótimo Jogo Sujo (Foul Play, 1978), misturando comédia e suspense com leveza também ao lado de Goldie Hawn.

Steve Martin, por sua vez, é o comediante-filósofo, o homem que transformou o nariz de Roxanne (1987) em símbolo de vulnerabilidade e charme. Começou como roteirista e stand-up, e seu primeiro grande sucesso no cinema foi The Jerk (O Panaca, 1979), dirigido por Carl Reiner. Nele, Martin interpreta Navin Johnson, um homem ingênuo que acredita ser negro e embarca numa jornada de autodescoberta tragicômica. O filme é uma aula de humor nonsense, com cenas memoráveis e uma performance que mistura inocência e delírio.

Martin seguiu com uma sequência de sucessos: Um Espírito Baixou em Mim (All of Me, 1984), também dirigido por Reiner, onde contracena com Lily Tomlin em uma comédia sobre possessão corporal que exige precisão física e expressiva; O Homem com Dois Cérebros (1983), Os Safados (1988), Parenthood (1989), O Pai da Noiva (1991) e sua continuação, além de Os Picaretas (Bowfinger, 1999), sátira sobre os bastidores de Hollywood, com Eddie Murphy.

Mas foi em Três Amigos! (Three Amigos!, 1986) que Martin e Chase se encontraram em cena, ao lado de Martin Short. Dirigido por John Landis, o filme conta a história de três atores de filmes mudos que são confundidos com heróis reais por uma vila mexicana. Com figurinos espalhafatosos, números musicais e piadas visuais, Three Amigos! é uma celebração do humor ingênuo e da amizade, e embora não tenha sido um sucesso estrondoso na época, ganhou status cult com o tempo.

Nos últimos anos, Chevy Chase teve uma reinvenção tardia na série Community (2009–2014), interpretando Pierce Hawthorne, um milionário excêntrico e politicamente incorreto que estuda em uma faculdade comunitária. O papel lhe rendeu uma nova geração de fãs e mostrou que seu humor ainda tinha fôlego. Já Steve Martin se dedicou à música — é um respeitado banjoísta — e à literatura, com romances e peças teatrais que revelam sua versatilidade. Mas foi com Only Murders in the Building (em cartaz desde 2021), série da Hulu também estrelada por Martin, Martin Short e Selena Gomez, que ele voltou ao centro das atenções. Misturando mistério e comédia, a série é um sucesso de crítica e público, e reafirma Martin como um artista completo, capaz de se reinventar sem perder sua essência.

A importância de ambos para a comédia vai além dos filmes e séries. Eles ajudaram a moldar o gênero em uma época em que fazer rir era considerado menos nobre do que fazer chorar. Mas a verdade é que a comédia exige precisão cirúrgica, timing impecável e uma sensibilidade rara para o absurdo da vida.

Enquanto o drama se apoia na dor, a comédia se equilibra na tragédia — e a transforma em catarse. Chase e Martin entenderam isso como poucos. Seus personagens são falhos, exagerados, muitas vezes ridículos (muito ridículos), mas profundamente humanos. Eles nos fazem rir porque nos reconhecemos neles.

Hoje, em um mundo saturado de ironia e humor instantâneo, revisitar a obra desses dois gigantes é como reencontrar uma velha fita VHS que ainda funciona: há algo de reconfortante, de genuíno, de artesanal em suas performances.

Eles não precisavam de efeitos especiais ou roteiros mirabolantes — bastava uma expressão, uma pausa, uma frase fora de lugar. E o riso vinha, espontâneo, libertador.

Chevy Chase e Steve Martin não foram apenas reis da comédia nos anos 80. Foram profissionais capazes de transformar o cotidiano em espetáculo. E mesmo que o tempo tenha passado, suas obras continuam a ecoar, lembrando-nos que, às vezes, tudo o que precisamos é de um bom tropeço, uma piada bem contada e a certeza de que rir ainda é — e sempre será — o melhor remédio.