Cena

Ceramista resgata a identidade caiçara em exposição no Centro

31/07/2025 Isabela Marangoni
Arquivo pessoal

Com mais de duas décadas dedicadas à cerâmica, a artista Bárbara Anderáos mergulha na paisagem e na cultura da Baixada Santista e apresenta a exposição “Cultura Caiçara como referência material e gestual na criação de objetos cerâmicos”. A mostra, fruto de uma imersão na Ilha Diana e no manguezal de Santos, fica em cartaz até 23 de agosto na Casa do Artesão.

O projeto, viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, integra uma pesquisa da artista sobre identidade cultural e território. “Queria entender o que é, de fato, a cultura caiçara. E como posso me aproximar dela de maneira respeitosa, se eu mesma não sou caiçara?”, questiona Bárbara, que visitou a comunidade da Ilha Diana, dialogou com moradores e explorou o manguezal para colher materiais naturais incorporados ao processo cerâmico.

Cultura caiçara

Foi nessa vivência que a artista pisou pela primeira vez no mangue. “A maioria dos santistas, como eu, conhece pouco da própria natureza. Achamos que Santos é só o jardim e a praia, mas tem muito mais”, observa. Guiada por um barqueiro local, ela navegou pelos canais, viu de perto guarás vermelhos e recolheu lama preta, conchas e matéria orgânica que serviram de base para suas experimentações artísticas.

A lama, rica em ferro, foi transformada em engobe — uma espécie de argila líquida usada na decoração cerâmica. “Quando queimei a amostra, a cor escura permaneceu. É um marrom quase preto, que carrega memória e identidade daquele lugar”. A tonalidade passou a compor uma paleta inspirada na paisagem local: verde escuro, preto e vermelho.

A exposição reúne fotografias da visita à Ilha Diana, corpos de prova dos testes com materiais do mangue e peças utilitárias que revelam texturas criadas a partir de conchas de mariscos e ostras. “Quando penso no mangue, penso nessas três cores. Quis manter essa paleta para valorizar a simplicidade e a força visual do ambiente”.

Além da mostra, Bárbara ofereceu uma oficina gratuita, como contrapartida do projeto, em que os participantes criaram suas próprias peças utilizando conchas como ferramentas. “Foi uma forma de compartilhar a pesquisa e ampliar a consciência sobre a riqueza do que temos aqui, muitas vezes invisível aos próprios moradores”.

Essa é a terceira grande investigação de Bárbara sobre o que ela chama de “identidade cerâmica”. As anteriores exploraram a linguagem dos sinos de São João del Rei – considerado patrimônio cultural imaterial do Brasil desde 2009 – e os ninhos do guaxe, pássaro típico do interior de Minas Gerais. “Essa nova pesquisa tem tudo a ver com o litoral sul, com a matéria local, com o fazer manual. É uma pesquisa de vida. Poderia passar o resto da vida só nela”, afirma.

Apesar do entusiasmo, a artista também chama atenção para os desafios de manter um ateliê e produzir arte de forma independente. “É muito difícil manter os boletos em dia e desenvolver pesquisa. Na universidade, eu tinha bolsa e estrutura. Como MEI, eu não tenho essas condições”.

Exposição

Para ela, valorizar a cultura caiçara é também um gesto de resistência. “Mais do que seguir tendências de mercado, é preciso olhar para o que está ao nosso redor. Existe um distanciamento da população santista em relação à sua própria identidade. Reconhecê-la e valorizá-la é construir um patrimônio — material e imaterial — que une e fortalece as pessoas”. E completa. “Quero trazer um olhar de respeito e valor à cultura caiçara. Mostrar que temos uma identidade rica, que precisa ser reconhecida, valorizada e preservada”.

A exposição fica aberta ao público até o dia 23 de agosto, e funciona de quarta a sábado, na Casa do Artesão de Santos, com entrada gratuita.

 

SERVIÇO

  • Quando: até 23 de agosto
  • Horário: das 10:30 às 16:30
  • Onde: Rua Tiro Onze, 11 – Centro, Santos
  • Entrada: gratuita