Cena

Centro de Santos recebe neste final de semana a Parada LGBT+

28/06/2025 Isabela Marangoni
Marcelo colmenero/divulgação

Santos se prepara para mais um marco na luta por igualdade e visibilidade com a realização da 8ª Parada do Orgulho LGBT+, que acontece neste fim de semana. Com o tema “Envelhecimentos LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, a programação inclui shows, trio elétrico, performances artísticas e atividades voltadas ao fortalecimento da comunidade LGBTQIA+.

Mais do que uma celebração, a Parada reafirma seu caráter político e de resistência. Durante todo o mês, ações culturais, esportivas e de formação buscaram ampliar o debate sobre diversidade, com foco especial no envelhecimento da população LGBT+.

A escolha do tema deste ano foi feita coletivamente, em conjunto com outras paradas do estado de São Paulo, incluindo a da capital. “Foi uma decisão para valorizar todos aqueles que vieram antes. Normalmente escolhemos sozinhos, mas desta vez foi um movimento conjunto”, explica Eduardo Ferreira, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Santos (APOLGBT).

Para ele, celebrar o envelhecimento LGBT+ é reconhecer trajetórias de coragem e luta. “É importante não apenas celebrar, mas também homenagear as pessoas mais velhas, que enfrentaram muitas barreiras. Se hoje temos apoio da prefeitura e do governo estadual, é porque muita gente abriu caminho”, afirma. Eduardo lembra ainda que muitas dessas pessoas enfrentam o abandono. “Ao passar dos 50 anos, muitos são esquecidos, ficam isolados e, por segurança, até voltam para o armário. Queremos reverenciar essas vivências”.

Mesmo com avanços, a Parada segue sendo um ato político urgente. “Não temos leis que garantam nossos direitos — apenas decisões judiciais. Não buscamos privilégios, apenas igualdade de direitos, como está na Constituição. Por isso, seguimos nas ruas”, pontua.

DIVERSIDADE EM PAUTA

A programação do Mês do Orgulho inclui a 3ª edição da DiversaFeira – Feira da Diversidade de Santos, no sábado (28), a partir das 12h, na Casa da Frontaria Azulejada. O evento reúne mais de 50 expositores LGBT+, atrações artísticas, debates, oficinas e um ato inter-religioso. “Falamos de diversidade de forma ampla — não só LGBTs, mas também mulheres, pessoas negras, PCDs. Teremos drag queens, dança, música e uma mesa sobre o envelhecimento LGBT”, destaca Ferreira.

Um dos destaques será a Primeira Conferência Regional de Políticas LGBT+ da Baixada Santista, aberta ao público e com inscrições a partir do meio-dia. “Vamos debater políticas públicas e eleger delegados para a conferência estadual”.

No domingo (29), a partir das 12 horas, a Parada toma as ruas com orgulho, alegria e resistência. A concentração será na Praça José Bonifácio. O cortejo com trio elétrico passará pela Rua Braz Cubas, Avenida João Pessoa e Praça Rui Barbosa até a Praça Mauá, no Centro Histórico.

ARTE E LIBERDADE

Ao longo do percurso, o público será animado por apresentações de drag queens, DJs e artistas da cena regional, como a icônica Tchaka Drag Queen, que comandará o palco principal ao lado de Magenta — uma das figuras mais marcantes da história da Parada em Santos.

Presente desde a primeira edição, Magenta, criada por Christian da Silva Marcelo, é conhecida por seus visuais deslumbrantes e performances envolventes. “Fazer drag, para mim, é a possibilidade de me tornar quem eu quiser”, define. “É uma arte lúdica, uma forma de expressar nossa visão de mundo. Eu resumiria drag em uma palavra: liberdade. Não existe certo ou errado. Se estou feliz fazendo do meu jeito, isso basta”.

ENCONTRO DE GERAÇÕES

A edição deste ano aposta na valorização de artistas 50+ em toda a programação. “Temos drag queens, músicos, dançarinos e debatedores acima dos 50 anos. É importante que o público os veja e se imagine envelhecendo com orgulho”, destaca Eduardo. Até a comunicação da Parada foi pensada para esse diálogo intergeracional. “Nos Jogos da Diversidade, por exemplo, a imagem é de um homem de 60 anos jogando queimada. Isso comunica muito”.

Um dos nomes mais atuantes da militância LGBT+ na Baixada Santista, Platão Caputto Filho leva essa reflexão também para o audiovisual. Artista e ativista com mais de 40 anos de trajetória, ele lança o curta ‘Emblema’, inspirado em histórias reais de mulheres trans mais velhas. “O filme é um desdobramento da pesquisa que iniciei antes da pandemia sobre envelhecimento LGBT. Conheci histórias comoventes na Baixada e no Rio de Janeiro, e isso me motivou a criar”, conta.

Platão integra a diretoria da APOLGBT e atua ativamente na construção de políticas públicas para o envelhecimento LGBT+. “Muita gente acha que a associação só organiza a Parada, mas fazemos muito mais. Este ano, por exemplo, estamos dando visibilidade à velhice LGBT como nunca antes”.

Ele estará na Parada deste ano e estampa o cartaz oficial do evento. “Convido todas as pessoas da região para estarem conosco. Estou no cartaz olhando por um binóculo a memória, a resistência e o futuro”, conta.

POLÍTICA PÚBLICA COMO LEGADO

A criação da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Santos foi um divisor de águas para o evento. A entidade passou a representar a comunidade junto ao poder público, contribuindo para conquistas importantes, como a transformação da antiga Comissão Municipal da Diversidade Sexual no atual Conselho Municipal de Políticas LGBT+. “Hoje o conselho é deliberativo, consultivo e tem voz junto ao Executivo”, celebra Eduardo.

O próximo passo, segundo ele, é garantir uma casa de acolhimento LGBT em Santos, principal bandeira da associação atualmente. “Sonhamos com o dia em que a Parada não precise mais existir. Que não precisemos ir às ruas por respeito ou direitos. Mas enquanto isso não acontece, seguimos lutando para transformar nossas propostas em políticas públicas”.

Para quem vai à Parada pela primeira vez, Eduardo deixa um convite afetuoso: “Vá sem medo, vá de coração aberto. A Parada é um espaço de respeito, acolhimento e celebração. Todos, todas e todes são bem-vindes”.