
A criação do Centro Cultural Wagner Parra, no Centro de Aprendizagem e Mobilização Profissional e Social (CAMPS Santos), nasceu de um gesto de afeto, memória e preservação. Instalado no terceiro andar do prédio novo, o espaço reúne fotos, objetos e uma rara documentação sobre os 58 anos de história da instituição — e homenageia um de seus ex-aprendizes mais emblemáticos. Wagner Parra, falecido em fevereiro de 2015, foi DJ, produtor, pesquisador musical e patrulheiro do CAMPS entre 1975 e 1976.
Inaugurado na última sexta (28), o centro apresenta uma galeria de imagens históricas, vitrines com objetos e uma sala de descompressão equipada com sofás, livros e jogos de tabuleiro, aberta ao público interno durante o horário administrativo.
Um dos principais destaques é o acervo de cerca de 8 mil CDs de Wagner, doado por sua companheira, Cláudia Chelotti. Todo o material foi digitalizado e pode ser ouvido em tablets disponíveis no local. A biografia do DJ também pode ser acessada por QR Code na entrada.
Homenagem
A iniciativa partiu do presidente do CAMPS, Elber Justo, amigo de longa data de Wagner. “Este espaço homenageia um ícone da cultura santista. Com a chegada da coleção de CDs, que agora integra o acervo, celebramos seu legado e mantemos viva sua memória”, afirma.
O centro cultural também nasceu do desejo de impedir que o vasto acervo de Wagner — composto por CDs, mini CDs, cartões musicais e raridades de diversos estilos e países — se dispersasse.
Noite santista
Muito antes de se tornar referência na cena cultural, Wagner passou pelo CAMPS, na época ainda conhecido como Patrulheiros. “Os meninos trabalhavam em escritórios, faziam entrega, empacotavam supermercado. O Wagner foi patrulheiro no antigo Eldorado, que hoje é o Carrefour da Conselheiro Nébias”, relembra Cláudia.
Sua marca era a diversidade musical — e a necessidade quase pedagógica de compartilhar descobertas. Militante do suporte físico, defendia CDs e LPs com paixão. “Ele dizia que o que aconteceu com a música foi como se tivessem queimado as bibliotecas. Usava Spotify só para conhecer, se gostasse, ia atrás do CD”.
Essa postura também orientava suas discotecagens: nada de playlists ou computadores. “Ele nunca tocou nada digital. Decidia na hora e fazia o povo dançar músicas que ninguém tinha escutado”.

Agitador cultural
Além de DJ, Wagner foi produtor e agitador cultural. À frente da Fiasco Produções Artísticas, trouxe para Santos artistas ligados ao teatro Lira Paulistana, como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção — presenças que, muitas vezes, o público desconhecia terem sido viabilizadas por ele. “Quando você vê um show, nem sempre sabe quem trouxe. Muita gente viu coisas incríveis sem saber que foi o Wagner”, comenta Cláudia.
Sem elitismos, defendia que música boa dependia de contexto, não de hierarquia estética. “Para ele, música era ambiente”.
Sobre os mais de 30 anos ao lado dele, Cláudia resume. “Não é uma descrição, mas um sentimento: admiração. Além de amar, admirei muito o Wagner”.
Generosidade sonora
O cantor Julinho Bittencourt conheceu Wagner nos tempos de Facos, antiga Faculdade de Comunicação de Santos. O período de convivência foi breve, mas definitivo. “Ficamos amigos muito rápido, pela paixão dos dois pela música”.
Com humor ácido e um radar apuradíssimo, Wagner se tornou fonte de descobertas. Vasculhava lojas e retornava com LPs que redefiniram referências de toda uma geração. “Tenho vários discos que peguei da mão dele. Coisas que, se ele não trouxesse, a gente não teria acesso aqui”.
Com ouvido treinado, identificava países caribenhos só pela sonoridade e transitava, com propriedade, pela música brasileira mais alternativa. As memórias incluem as quintas no Bar do Três com a Banda Jornal do Brasil e o DJ Wagner Parra, além de broncas certeiras quando algum músico improvisava por cima de seu set. “Ele era muito exigente e extremamente profissional”.
Para Julinho, ver o nome do amigo em um centro cultural é simbólico. “É uma emoção muito grande. Ainda mais sendo no CAMPS, tem um significado enorme”.
Invenção permanente
O produtor Michel Pereira foi apresentado a Wagner nos anos 1980, por Douglas Parra, irmão do DJ. A sintonia foi imediata. Antes mesmo do Torto Bar, já produziriam shows de Dercy Gonçalves, Costinha, grupos como XPTO e até Os Paralamas do Sucesso, em 1990 — todos sob o selo irônico da Fiasco Produções.
Ver o nome do amigo no Centro Cultural é, para ele, um acerto afetivo e histórico. “Cultura não deve seguir tendência, deve criar tendência”.


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