Cena

Cantor santista faz da música autoral um ato de resistência

05/06/2026 Isabela Marangoni
Reprodução Pexels

Foi um disco de Rita Lee que mudou tudo. Criado no Morro São Bento, cercado pelo samba e sem muito interesse por música na infância, o cantor e compositor Julio Ricardo dos Santos encontrou no álbum ‘Fruto Proibido’ uma espécie de despertar artístico aos 14 anos. “Eu não gostava de música quando era criança. Mas comprei esse disco da Rita Lee e me apaixonei pelo trabalho dela”, relembra.

Depois vieram Caetano Veloso, as aulas de violão e teclado e uma relação cada vez mais intensa com a composição. Paralelamente à carreira como professor, Julio aproveitava as férias para gravar seus próprios discos e alimentar um repertório autoral.

Santos aparece o tempo todo em suas canções. Julio guarda na memória a vista do porto, os navios e a cidade observada do alto do morro. Essa ligação afetiva virou música em “Menina Ilha”, composição que transforma Santos em metáfora poética. “Eu via o porto, via os navios. A música fala dessa cidade-ilha onde eu nasci”, conta.

Composições do cotidiano
Segundo o artista, muitas músicas surgem quase de forma intuitiva, atravessadas pelo contexto político, emocional e social do momento. Foi assim com “O Senhor da Guerra”, composta em um feriado de Finados, pouco antes da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. “Eu acordei, tomei café, fui para o teclado e a música saiu. A gente capta o que está à nossa volta sem perceber”, afirma.

As viagens também influenciam diretamente sua criação. Depois de passar uma temporada em Lisboa, Julio voltou ao Brasil e compôs “Livre em Lisboa”, escrita parcialmente em inglês. “As primeiras frases saíram em inglês. Eu pensei: se saiu assim, alguma coisa deve haver. Temos que respeitar a própria vivência”, explica.

Internet e identidade
Mesmo reconhecendo o alcance proporcionado pelas plataformas digitais, Julio vê contradições nesse novo cenário. Formado em cinema, passou a dirigir os próprios videoclipes para fortalecer sua identidade visual nas redes sociais. “Tem gente da Rússia ouvindo minhas músicas, pessoas que eu nunca vi. Essa é a parte bonita da internet”, comenta.

A preocupação com identidade também aparece na maneira como organiza seus discos. Julio sente falta de álbuns conceituais na música brasileira atual e cita como exemplo “Shangri-La”, trabalho inspirado na cidade fictícia criada pelo escritor James Hilton. O disco propõe uma espécie de refúgio simbólico diante da violência e do desencanto social. “O Brasil está muito triste. Então é melhor criar um Shangri-La”.

Agora, o cantor prepara um novo show em Santos, pensado com calma e sem pressa. A apresentação deve reunir parte de seu extenso repertório autoral e destacar seu songbook, com letras, cifras e partituras de suas composições.

Julio segue compondo movido pelas contradições do cotidiano brasileiro — e compartilhando cada novidade nas redes sociais @julio_ricardo_tarik.