Cena

Camilo Vannuchi lança em Santos livro sobre denúncia da ditadura

20/04/2026 Isabela Marangoni
Dino Santos

A ditadura militar no Brasil segue presente no debate público — seja para reflexão ou em meio a disputas de narrativa. É nesse contexto que o jornalista e pesquisador Camilo Vannuchi lança o livro-reportagem Nunca Mais: os Bastidores da Maior Denúncia Contra a Tortura já Feita no Brasil, obra que reconstrói a história por trás do clássico Brasil: Nunca Mais, publicado em 1985.

Os lançamentos acontecem no dia 23 de abril, na Livraria Realejo, das 18h às 20h, com sessão de autógrafos; e no dia 24, no Instituto Histórico e Geográfico de Santos, das 14h às 17h. A programação dialoga com uma data simbólica para a cidade: o Dia da Memória do Navio-Presídio Raul Soares, celebrado em 24 de abril, em homenagem às vítimas da embarcação utilizada como centro de prisão e tortura durante a ditadura.

Atracado no porto de Santos em 1964, o navio foi convertido em espaço de repressão, marcando profundamente a memória de famílias da região. “É um dia municipal importante, em homenagem às vítimas do Raul Soares”, destaca.

Investigação histórica
A motivação para o livro surgiu a partir dos 40 anos da publicação de Brasil: Nunca Mais. “Muita gente conhecia apenas o resultado final, que é o livro. Mas eu queria contar tudo: quem fez, como foi feito, onde esse material foi armazenado”, explica Vannuchi.

A obra original reuniu dados de mais de um milhão de páginas de processos do Superior Tribunal Militar (STM), incluindo cerca de 1.800 relatos de tortura, a identificação de 242 centros clandestinos e a citação nominal de 444 agentes envolvidos em práticas repressivas.

O novo livro reconstrói a operação clandestina que, entre 1979 e 1985, copiou e analisou esse vasto material sob absoluto sigilo. Liderado por figuras como Dom Paulo Evaristo Arns e Jaime Wright, o projeto resultou em uma das mais contundentes denúncias de violações de direitos humanos no país.

Sem autoria assinada, por razões de segurança, Brasil: Nunca Mais se tornou um marco editorial e político. “Era tudo clandestino, havia muito medo de retaliação. Dependendo do futuro do país, aquelas provas poderiam levar à prisão de agentes do Estado”, afirma o jornalista. O impacto foi imediato: o livro permaneceu por 91 semanas entre os mais vendidos.

Rede invisível de resistência
Vannuchi humaniza a investigação ao destacar os personagens por trás da operação — advogados, religiosos e jovens pesquisadores que arriscaram a própria segurança para documentar os crimes do regime. “É um livro sobre um livro”, resume.

Entre os personagens, surgem figuras pouco conhecidas, como o operador de xerox e o responsável pelos microfilmes enviados ao exterior — peças-chave para garantir a preservação das informações.

A investigação também resgata o papel central da advogada Eny Raimundo Moreira, apontada como idealizadora do projeto. “Muita gente acha que foi uma iniciativa da Igreja, mas não foi. Foi ela quem teve a ideia e buscou apoio”, afirma.

Operação clandestina
A logística da operação revela o grau de risco envolvido. “Eles mudaram de lugar duas vezes por suspeita de estarem sendo descobertos. De madrugada, colocavam tudo em caminhões e desapareciam sem avisar ninguém”, relata.

O material reunido foi posteriormente preservado e hoje integra o acervo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de estar disponível em formato digital.

Para o autor, revisitar essa história é também iluminar formas de resistência frequentemente invisibilizadas. “Falamos muito das barbaridades, mas pouco dessas pessoas que arriscaram tudo para denunciar. Eram pessoas comuns, que trabalharam seis anos em segredo absoluto”, afirma.

Memória, presente e democracia
Ao recuperar essas trajetórias, o livro estabelece um diálogo direto com o presente. “Contar dessas pessoas é um reconhecimento histórico e mostra que havia gente disposta a se arriscar para denunciar uma violência estrutural que precisava ser superada”, diz.

A narrativa evidencia uma rede diversa que reuniu advogados, jornalistas e lideranças religiosas, em um movimento que atravessou diferentes setores da sociedade. Entre os nomes citados estão Frei Betto e Paulo Vannuchi, responsáveis por transformar o extenso relatório em uma obra acessível ao público.

O livro também aponta as contradições do período, incluindo tensões dentro das próprias instituições religiosas. Ao traçar paralelos com o Brasil atual, Vannuchi demonstra preocupação com a fragilidade democrática. “Eu cresci achando que a democracia era algo consolidado. Hoje vejo com preocupação episódios recentes e percebo que não fizemos o dever de casa”, afirma.

Segundo ele, a ausência de responsabilização pelos crimes da ditadura contribui para a permanência de práticas violentas. “O fato de nunca termos punido torturadores funciona como um salvo-conduto para que a tortura continue existindo”.

Convite ao debate
A obra propõe uma reflexão ativa sobre memória e justiça. “Eu adoraria virar a página, mas para virar a página a gente precisa ler a página primeiro”, resume o autor.

Nos encontros em Santos, a proposta é ampliar esse diálogo com o público. Na Livraria Realejo, o lançamento acontece em formato descontraído, como um bate-papo aberto. Já no Instituto Histórico e Geográfico de Santos, a programação inclui uma mesa sobre memória, verdade e justiça, além da exposição “Ausências Brasil”, com fotografias de famílias marcadas pelo desaparecimento de entes durante a ditadura. “É um convite para falar sobre o passado, mas pensando no presente e no futuro”.