
O projeto Café Cine Degusta, idealizado pelo jornalista e cineasta Eduardo Ricci, une a cultura do grão à experiência cinematográfica e a outras formas de arte em uma combinação sensorial única. Nesta edição, intitulada “Sabores do Vazio”, o público é convidado a mergulhar nos espaços entre as cenas, nos intervalos sonoros e no tempo desacelerado, para refletir sobre o conceito de vazio — os espaços e pausas que permeiam as narrativas, as sensações e os momentos da vida. O encontro acontece no dia 19 de agosto, das 18 às 21 horas, com inscrições pelo formulário.
“A proposta do Cine Degusta é sempre unir a cultura do café, a experiência do cinema e expandir isso para outras artes, como design, pintura e dança, sempre focando no que dá liga ao projeto”, explica Ricci. Nesta edição, o evento conta também com a participação da artista gráfica Márcia Okida.
O conceito central do evento tem inspiração no princípio japonês chamado Ma, que, segundo Ricci, “é mais do que um conceito: representa o intervalo entre as coisas, o espaço entre o agora e o que vem depois”. Essa ideia se manifesta nos ideogramas japoneses que remetem a portais, como o torii — tradicional portão que marca a entrada de santuários ou locais sagrados — comuns na cultura japonesa e em bairros como a Liberdade, em São Paulo.
O vazio nos filmes
No cinema, o vazio funciona como recurso poderoso para dar ritmo e profundidade às narrativas. “A cineasta Jane Campion, por exemplo, utiliza o vazio para revelar sentimentos. Em O Piano (1993), a personagem Ada, muda, se expressa com o piano e, em uma cena emblemática, deixa o instrumento na praia — criando um espaço vazio que fala profundamente sobre ela e sua história. Esse vazio entre momentos e emoções é o que torna a cena tão memorável”, conta Ricci.
Outro filme que dialoga com essa ideia é Ataque dos Cães (2021), também de Campion, onde o vazio carrega dor e ausência, como na cena em que uma personagem sofre violência e mergulha na lama. “Esse vazio é simultaneamente um espaço de completude e reflexão”, observa.
Além das obras de Campion, o Cine Degusta traz referências como 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), com sua emblemática cena do osso lançado para o vazio que se transforma em nave espacial, e filmes do animador Hayao Miyazaki, que utiliza longos planos contemplativos para transportar o espectador a outra dimensão. “O cinema contemporâneo, em sua maioria, é frenético — os blockbusters de super-heróis entregam uma experiência acelerada, quase como fast food. Nosso projeto busca ‘deseducar’ esse olhar, mostrando como o vazio e os intervalos são essenciais para mergulhar verdadeiramente na história”, explica o idealizador.
Essa reflexão sobre o vazio tem relação direta com o café e a gastronomia. “Se não houver espaço vazio na xícara, não há como apreciar o café, assim como não há como absorver uma cena se não houver um intervalo que permita a contemplação”, compara Ricci.
Além da tela
A seleção dos filmes desta edição prioriza não apenas a excelência técnica, mas sua capacidade de tocar o espectador de forma afetiva. Entre as referências estão ainda Além da Vida (2009) e 21 Gramas (2003), que exploram o conceito do instante eterno e o peso do último suspiro. “Esses intervalos nos conectam à existência, ao primeiro e último suspiro da vida — e o cinema tem o poder de nos levar a esses lugares”, afirma.
O encontro vai além da tela. “Quem participa do evento é convidado a entrar em uma experiência que envolve não só o olhar, mas o corpo, o tempo e o paladar. Queremos que as pessoas saiam não apenas tendo assistido a um filme, mas sentindo uma nova forma de perceber o mundo”, conclui.
Além do cinema, o projeto promove a degustação de cafés especiais harmonizados com temáticas profundas, ampliando o repertório sensorial do público. “Esse café é surpresa, de uma região inesperada do Brasil — brincamos com essa ideia lúdica”, revela Ricci. O cardápio inclui alimentos doces e salgados cuidadosamente escolhidos para harmonizar com a bebida e o tema do encontro.
A conexão entre café e cinema não é casual: o projeto explora o conceito de terroir — termo francês associado ao vinho, mas que também se aplica ao café, destacando a ligação entre a bebida e a terra onde é cultivada. “Mostramos imagens da região onde o café foi colhido, revelando uma dimensão cultural e sensorial única. O café, assim, se transforma numa bebida independente, quase como um vinho”, explica.
Experiência completa
O ritual criado pelo Cine Degusta transforma a experiência. “Muitas pessoas vêm depois do trabalho para desopilar, para aliviar a tensão do dia”, conta.
Ricci resume o público ideal do projeto. “É aquele que tem vontade de viver — que ama cinema, café, quer ampliar conhecimentos e estar presente de corpo e alma nessa ação”.
As inscrições estão abertas até 14 de agosto, com o primeiro lote custando R$ 98. Após essa data, o valor sobe para R$ 118, e as inscrições vão até 18 de agosto com envio do valor para a chave PIX [email protected]. O endereço do evento será divulgado após a confirmação da inscrição. Para participar, acesse o site e preencha o formulário.


Deixe um comentário