Longevidade

Bom dia, gentileza!

02/08/2025 Ivani Cardoso
Reprodução/Envato

Gosto muito da fábula da convivência, metáfora proposta pelo filósofo Schopenhauer, sobre um grupo de porcos-espinhos que tenta sobreviver ao inverno durante uma era glacial, buscando calor uns nos outros. Eles se ferem, se afastam, mas voltam a se unir para escapar da morte. A história representa a dificuldade das relações humanas permeadas pela solidão, concessões e distanciamentos.

Como sobreviver a esse mundo tão egoísta, rápido e desafiador? A generosidade pode ser um caminho transformador. Eu costumava dizer para os meus filhos pequenos que “quem não reparte não tem amigos”, e é verdade. Virou frase familiar, também com as netas, espero que continue se encaixando nos roteiros do cotidiano deles, certeza que ninguém pode garantir. Hoje complemento: “quem não reparte não tem amigos e nem amores”. Eu bem que tento, nem sempre com sucesso.

Faz parte da nossa natureza compartilhar experiências, ideias, recursos e valores para nos aproximar dos outros, mas parece que todos estamos esquecendo o quanto é importante construir pontes de empatia e bondade, principalmente no envelhecer. E quem nunca foi generoso, provavelmente também não será na velhice se não se esforçar para mudar.

Ser generoso é cuidar de si e dos outros, voltar os olhares para cultivar os relacionamentos que valem a pena, buscar atitudes acolhedoras nos pequenos gestos do dia a dia para quem está ao lado. Às vezes é fácil ser generoso com os amigos ou pessoas que queremos seduzir, mas nem tanto com os familiares, com os vizinhos, com os funcionários do escritório ou do edifício.

Os mais velhos podem ser generosos oferecendo conhecimento e a sabedoria adquiridas com o tempo: os mais novos ganham quando desenvolvem a paciência para escutar, ensinar e aprender. Quando doamos tempo, ajuda financeira ou contribuímos com projetos da comunidade também estamos colaborando para um propósito de vida mais justo, saudável e com significado.

Pena que não é bem assim. O que eu vejo muito nas ruas de Santos, por exemplo, é a falta de generosidade com os pedestres à espera na tal faixa viva para atravessar a rua. Parece que alguns motoristas até aceleram para desanimar de vez quem pretende encontrar brechas seguras. E quando alguém resolve parar, muitos ficam até com medo de prosseguir. Triste quando a gentileza gera desconfiança.

E enquanto uma nova era glacial não vem, ainda temos tempo para enfrentar juntos os espinhos para sobreviver e evitar pensar pequeno olhando só para o próprio umbigo.

Dica de filme e livro

Intocáveis

Filme gostoso de ver, mistura de drama e comédia com dois atores sensacionais. Philippe (François Cluzet) é um aristocrata rico que, após sofrer um grave acidente, fica tetraplégico. Driss (Omar Sy), um jovem problemático que não tem a menor experiência em cuidar de pessoas no seu estado é contratado. Os dois desenvolvem uma relação improvável de amizade, generosidade e respeito. Telecine.

 

A Elegância do Ouriço

Em seu segundo romance, Muriel Barbery revela um prédio refinado em Paris, onde moradores ricos e tradicionais levam suas vidas de aparências e mediocridades. Paloma, 13 anos, é a filha caçula de uma das famílias que busca um sentido para sua vida e pensa em suicídio entre reflexões filosóficas sobre a existência. Discreta e ranzinza, Renée
é a zeladora que esconde uma cultura refinada para sobreviver ao ambiente e garantir o emprego. A vida das duas vão se entrelaçando, principalmente depois da chegada de Kakuro Ozu, um senhor japonês que mostra a importância da amizade e da solidariedade, além da beleza das coisas simples. Editora: Companhia das Letras.