
Com curiosidade de sobra e paixão pelo Império brasileiro, o historiador e escritor Paulo Rezzutti reeditou suas obras biográficas, incluindo a coleção ‘A História Não Contada’ e sua pesquisa sobre a Marquesa de Santos. Conhecida como amante do imperador Dom Pedro I, Domitila de Castro foi uma das figuras centrais do Primeiro Reinado, reconhecida por sua influência política e social.
A atualização das obras surgiu após a mudança do autor para a editora Record. “Em vez de apenas republicar, quis acrescentar informações novas e melhorar a experiência do leitor”, explica. Os livros estão disponíveis nas principais livrarias e online, pelo site da editora Record e Amazon.
Mais do que a amante de um imperador, Domitila desafiou os papéis tradicionais impostos às mulheres do século XIX. A marquesa de Santos usou sua posição para intermediar acordos, influenciar nomeações e conquistar benefícios. Segundo Rezzutti, sinais de sua determinação já apareciam antes mesmo de conhecer Dom Pedro I, revelando uma mulher que não se conformava com os limites da sociedade.
Da arquitetura à história
Formado em arquitetura, Rezzutti conheceu a Marquesa quase por acaso. “Meu TCC foi sobre Paranapiacaba, estudando a implantação de um hotel e a presença inglesa na região. Na época, estava sendo restaurado o solar da Marquesa de Santos, que abrigava o Museu da Cidade de São Paulo. Para estudar técnicas de restauro, precisei pesquisar sobre quem havia vivido naquela casa. Foi assim que comecei a me aprofundar na história dela”.
O que começou como uma pesquisa arquitetônica se transformou em quase 30 anos de estudo sobre uma mulher cuja trajetória vai muito além do relacionamento com Dom Pedro I. “Eu só sabia que ela havia sido amante do imperador e que a história se passava no Rio de Janeiro. Mas, ao estudar o solar, descobri que ela comprou a casa ao retornar a São Paulo e que havia toda uma vida além desse relacionamento, algo quase nunca explorado”.

À frente do seu tempo
Rezzutti ressalta o desafio de pesquisar mulheres na história. “A acadêmica francesa Michelle Perrot diz que a mulher entra para a história de duas maneiras: pela santidade ou pelo oposto. No caso da Marquesa, ela entrou pela relação com um amante, e poucos se preocuparam em registrar suas conquistas. Esta biografia mostra uma mulher que desafiou as expectativas da sociedade paulista da época”.
Domitila esteve presente em momentos cruciais da história brasileira, da Colônia à Independência, chegando a apoiar financeiramente tropas voluntárias na Guerra do Paraguai. “Ela participou de episódios importantes que foram esquecidos. Como pesquisador, encontrei poucas fontes de próprio punho, algumas cartas para familiares e para o último marido, Rafael Tobias de Aguiar. É difícil encontrar documentos sobre mulheres que não eram governantes, e ela se destaca justamente por isso”.
Independência financeira
A Marquesa também desafiou convenções em sua vida pessoal. Casada aos 15 anos e mãe em seguida, pediu divórcio após sofrer agressões do marido — atitude rara para a época, que quase lhe custou a vida. Fugiu com três filhos e conheceu Dom Pedro I durante um episódio ligado à guarda das crianças. O relacionamento durou sete anos, até que o imperador a afastou para casar com outra.
De volta a São Paulo, Domitila se uniu ao político Rafael Tobias de Aguiar, mantendo independência financeira — uma raridade para mulheres do século XIX. “Ela descobriu que, para ter liberdade, precisava ser dona do próprio dinheiro. Voltou do Rio de Janeiro riquíssima e manteve seus bens separados do marido, o que era extremamente raro”, afirma Rezzutti. A biografia revela, portanto, uma mulher complexa, influente e à frente do seu tempo.
Influência social e cultural
Segundo o historiador, Domitila transformou a vida social paulista. “Ela praticamente tirou a sociedade de São Paulo da era colonial. Antes dela, festas e recepções eram familiares. Ela trouxe hábitos da corte, promoveu bailes à fantasia no Carnaval, comemorava o 7 de setembro e o 11 de agosto, data da criação dos cursos jurídicos no Brasil”.
A Marquesa também exercia influência junto a estudantes. “Ajudava jovens pobres, fornecendo cartas de recomendação para que pudessem estudar em São Paulo ou Recife”.
Pesquisa rigorosa
Rezzutti detalha o cuidado com fontes originais. “Primeiro reviso tudo que já foi pesquisado. Depois faço levantamento bibliográfico e busco arquivos no Brasil e no exterior. Já encontrei 94 cartas de Dom Pedro para ela em Nova York, que resultaram no meu primeiro livro, só com essas cartas”.
As novas edições trazem acréscimos inéditos, como cartas da Imperatriz Leopoldina que revelam curiosidades da infância e juventude, além da vida de Dom Pedro I em Portugal e Dom Pedro II em sua educação e desafios de governar.
História acessível
Para Rezzutti, biografias são uma forma de levar a história ao público de maneira envolvente. “Todo mundo gosta de fofoca. Então você faz biografia, a pessoa compra achando que vai ter só isso, mas aí você acrescenta litros de história. É ensinar sem ser didático demais”.
O contato direto com o leitor é ampliado pelo canal no YouTube, iniciado em 2015. “Queria mostrar meu trabalho diretamente, sem depender de outros veículos. Hoje abordamos temas variados, sempre com cuidado para não superficializar o conteúdo”.
Projetos futuros
Rezzutti adianta próximos trabalhos. “Ainda quero fazer uma biografia da princesa Isabel. Dom João VI já está pronto, entregue à editora, e a ideia é lançar no início do próximo ano, para marcar os 200 anos da morte dele”.
As obras, incluindo a reedição de Domitila: A história não contada, estão disponíveis nas principais livrarias e online, pelo site da editora Record e Amazon.


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