
Com uma voz cálida, melódica e inconfundivelmente emotiva, BJ Thomas atravessou décadas de mudanças na música popular americana sem jamais perder o vínculo com o coração do público. Dono de uma carreira marcada por sucessos no pop, no country e na música cristã contemporânea, ele ficou eternizado por canções como Raindrops Keep Fallin’ on My Head, Hooked on a Feeling e Rock and Roll Lullaby. Mas sua trajetória vai além dos hits: foi uma vida marcada por superações, reinvenções e um legado que ainda reverbera tanto nas trilhas sonoras quanto nas memórias afetivas de milhões de ouvintes. Ele chegaria hoje aos 83 anos.
Billy Joe Thomas nasceu em 7 de agosto de 1942, em Hugo, Oklahoma, e cresceu nos arredores de Houston, Texas, em uma família pobre e marcada pela violência doméstica.
O apelido “BJ” veio da infância, para distingui-lo de outros meninos chamados Billy Joe em sua equipe de beisebol. Desde cedo, ele encontrou na música um refúgio. Cantava no coral da igreja e, na adolescência, juntou-se à banda The Triumphs, com a qual alcançaria o primeiro sucesso nacional: uma releitura do clássico de Hank Williams, I’m So Lonesome I Could Cry. A música vendeu mais de um milhão de cópias e abriu as portas para a carreira solo.
Logo BJ Thomas se destacou por sua habilidade de transitar com naturalidade entre gêneros. Em 1968, emplacou The Eyes of a New York Woman e, meses depois, Hooked on a Feeling, canção que mais tarde voltaria à cena graças ao filme Guardiões da Galáxia.
Seu momento de maior projeção internacional, no entanto, viria no ano seguinte. Em 1969, a trilha do filme Butch Cassidy and Sundance Kid precisava de uma voz para interpretar a canção de Burt Bacharach e Hal David. Depois de recusas de Bob Dylan e Ray Stevens, a tarefa caiu nas mãos de BJ Thomas, que enfrentava uma crise de laringite.
Mesmo assim, gravou cinco takes em estúdio — o suficiente para satisfazer o exigente Bacharach. Raindrops Keep Fallin’ on My Head não só conquistou o Oscar de melhor canção original como também se tornou seu primeiro número 1 na Billboard. Em 2014, foi incluída no Grammy Hall of Fame.
Voz e emoção
A voz de Thomas, suave mas carregada de emoção, parecia feita sob medida para narrativas sentimentais. Isso o levou a participar de várias trilhas de filmes e séries. No Brasil, consolidou uma ligação afetiva com o público graças às novelas da TV Globo. Em 1972, Rock and Roll Lullaby embalou Selva de Pedra e virou um clássico instantâneo. Reapareceu com força em 1986, com o remake da novela. Outras músicas como Oh Me Oh My e Long Ago Tomorrow também se destacaram nas trilhas sonoras brasileiras da época.
Sucesso
Apesar da fama, BJ Thomas enfrentava uma batalha silenciosa. O sucesso repentino o levou ao abuso de drogas e álcool, o que quase destruiu seu casamento com a cantora Gloria Richardson, com quem se casara em 1968. Chegou a ser considerado morto após uma overdose. Como ele mesmo contou à imprensa anos depois, só sobreviveu após ser ligado a máquinas hospitalares. A reviravolta veio em 1976, quando ele e Gloria se converteram ao cristianismo.
Caminho espiritual
O novo caminho espiritual não apenas salvou sua vida pessoal, mas também deu nova direção à sua carreira. O disco Home Where I Belong, lançado ainda em 1976, foi o primeiro álbum gospel a atingir o status de platina. Com ele, BJ Thomas se tornou um dos principais nomes da música cristã contemporânea nos Estados Unidos, vencendo cinco prêmios Grammy entre os anos 1970 e 1980. Mesmo nessa fase, continuava a se apresentar com seus antigos sucessos, o que gerava tensão com parte do público evangélico mais rígido.
Nos anos 1980, embora já não brilhasse com a mesma intensidade nas paradas pop, BJ Thomas encontrou espaço nas listas country. Emplacou sucessos como Whatever Happened to Old-Fashioned Love e New Looks from an Old Lover, ambos número 1 em 1983. Também deixou sua marca na televisão ao interpretar o tema da série Growing Pains (As Long As We Got Each Other), inicialmente como solo e, depois, em duetos com Jennifer Warnes e Dusty Springfield. A canção virou mais um de seus sucessos no mercado adulto contemporâneo.
Mesmo com a diminuição do espaço nas rádios, Thomas nunca parou de gravar e se apresentar. Em 2013, lançou The Living Room Sessions, um disco acústico em que revisitava seus maiores sucessos com participações de nomes como Lyle Lovett, Vince Gill e Richard Marx. A produção resgatava a intimidade e a emoção que sempre caracterizaram sua interpretação.
BJ Thomas vendeu mais de 70 milhões de discos ao longo da carreira. Recebeu nove indicações ao Grammy, foi membro da Grand Ole Opry e teve músicas gravadas ou interpretadas por Elvis Presley, Dusty Springfield e outros grandes nomes. Atuou em filmes como Jory (1973) e Jake’s Corner (2008), e chegou a escrever sua autobiografia, também intitulada Home Where I Belong, publicada em 1978.
A sua música apareceu em jingles publicitários, trilhas sonoras, novelas e filmes. A sonoridade que ele ajudou a moldar — uma mistura de soul, country, gospel e soft rock — antecipava o que viria a ser chamado de adult contemporary, um estilo que ainda ecoa em estações de rádio e playlists nostálgicas.
Em março de 2021, ele anunciou publicamente estar com câncer de pulmão em estágio avançado. Morreu dois meses depois, em 29 de maio, em casa, aos 78 anos. Deixou a esposa Gloria e as filhas Paige, Erin e Nora, adotada na Coreia do Sul em 1978.
BJ Thomas foi um artista de transição entre o country e o pop. Sua música, muitas vezes melancólica, outras vezes esperançosa, ainda toca quem a escuta pela primeira vez e emociona quem a ouve mesmo pela centésima vez.


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