Cena

Debate reforça a importância do jornalismo cultural

01/07/2026 Da Redação
Vera Aragusuku/Divulgação

Muito além da vocação inicial de divulgar espetáculos, exposições ou lançamentos, o jornalismo cultural ajuda a contar a história de uma cidade, ampliar o repertório das pessoas e fortalecer a identidade de uma comunidade. Em um momento em que as redações encolhem, as redes sociais aceleram a circulação da informação e os espaços dedicados à cultura nos veículos de comunicação diminuem, cresce também a necessidade de discutir qual é, afinal, o lugar do jornalismo cultural.

Foi esse o ponto de partida da roda de conversa “Jornalismo Artístico e Cultural em Santos”, promovida pelo Movimento Artistas Visuais Baixada Santista (MABS), na Futrica Economia Criativa. Com mediação da designer gráfica Márcia Okida, o encontro reuniu Carlota Cafiero, Cidinha Santos, Isabela Marangoni e Julinho Bittencourt para compartilhar experiências e refletir sobre os desafios — e as possibilidades — da cobertura cultural na região.

Embora cada participante tenha uma trajetória diferente, todos convergiram em uma ideia: o jornalismo cultural continua sendo essencial. Mais do que informar sobre eventos, ele interpreta a produção artística, cria conexões, preserva a memória e ajuda o público a compreender o contexto em que a cultura acontece.

Além da agenda
A rotina das redações mudou. Com equipes menores e prazos cada vez mais apertados, a cobertura cultural muitas vezes acaba restrita à publicação de releases, deixando pouco espaço para reportagens, entrevistas, críticas e textos capazes de aprofundar o olhar sobre uma obra ou um artista.

O resultado é uma cobertura mais superficial. Afinal, o jornalismo cultural nunca teve como missão apenas dizer o que está em cartaz. Seu papel é despertar curiosidade, provocar reflexão e apresentar novos olhares sobre a produção artística.

Quando Carlota disse que “está faltando poesia”, não falava apenas das palavras. Falava da maneira de enxergar a cultura: com mais sensibilidade, profundidade e atenção ao seu papel na construção da memória, da identidade e da forma como entendemos o mundo.

Se o jornalismo enfrenta dificuldades, a produção cultural segue acontecendo.Festivais, mostras, shows, livros, filmes e exposições continuam movimentando a Baixada Santista. O que mudou foi a forma como essas iniciativas chegam ao público.

As redes sociais deram aos artistas, escritores, músicos e produtores a possibilidade de falar diretamente com seus públicos, divulgar projetos e criar comunidades sem depender exclusivamente dos veículos tradicionais. Nesse cenário, o trabalho do jornalista ganha um novo significado: selecionar informações, contextualizar acontecimentos e registrar aquilo que fará parte da memória cultural da cidade.

Outro tema que apareceu com força foi a formação dos próprios jornalistas. Cobrir cultura exige muito mais do que dominar técnicas de reportagem. É preciso frequentar exposições, assistir a espetáculos, visitar museus, ler, ouvir música e manter a curiosidade sempre ativa. O repertório se constrói na convivência com diferentes manifestações artísticas e amplia a capacidade de produzir uma cobertura crítica, sensível e conectada com a realidade.

Os participantes também defenderam uma aproximação maior entre estudantes de Jornalismo e a produção cultural da região, estimulando o contato com artistas, espaços culturais e o patrimônio local desde a formação universitária.

Políticas públicas
A conversa não ficou restrita ao jornalismo. Também surgiram reflexões sobre as dificuldades enfrentadas por quem produz cultura na Baixada Santista.

Foram citadas a falta de espaços permanentes para exposições, equipamentos culturais subutilizados, entraves para executar projetos aprovados em editais e a demora na liberação de recursos públicos. Também houve críticas a editais que acabam dificultando a circulação de artistas entre os municípios da região.

O consenso foi de que incentivar a cultura vai muito além da abertura de editais. É necessário investir em políticas públicas permanentes, capazes de garantir estrutura, espaços de apresentação e condições para que a produção artística continue se desenvolvendo.

Em diferentes momentos da conversa, uma palavra voltou à pauta: colaboração. Fortalecer a relação entre jornalistas, artistas, produtores culturais e assessores de imprensa pode ampliar a circulação de informações e dar mais visibilidade ao que é produzido na região.

As transformações tecnológicas mudaram profundamente a forma como a informação circula, mas não diminuíram a relevância do jornalismo cultural. As redes sociais informam com rapidez. O jornalismo, por sua vez, oferece contexto, conecta acontecimentos, registra a memória e ajuda a formar novos públicos.

Em tempos de excesso de informação e consumo acelerado de conteúdo, talvez esse seja justamente seu maior desafio — e também sua maior contribuição: olhar para a arte com profundidade, estimular o pensamento crítico e preservar as histórias que ajudam uma comunidade a entender quem é e a imaginar o que ainda pode se tornar.