
Apaixonada por literatura desde a infância — especialmente por thrillers —, a escritora santista Claudia Lemes lança ‘Aqueles que Enterrei’, seu novo romance psicológico. Com doze livros publicados ao longo de uma carreira de mais de uma década, Claudia mergulha no cenário do isolamento pandêmico para construir uma narrativa densa e inquietante.
Ambientado durante a pandemia de Covid-19, o livro traz à tona temas como maternidade, violência obstétrica, abandono e fake news, costurados em uma trama intimista e carregada de tensão. “Há tempos eu queria escrever sobre a pandemia, porque foi uma experiência coletiva muito forte, mas ainda pouco explorada no gênero. Ela traz essa sensação constante de medo, insegurança e solidão”, afirma. “Talvez não seja saudável esquecermos tudo o que vivemos — muita coisa poderia ter sido evitada”, reflete a autora, incomodada com o apagamento simbólico desse período.
A escrita do livro passou por um processo longo de maturação, seguido por uma imersão criativa intensa. Para se conectar com a atmosfera da história, ambientada em Itu, Claudia se isolou na cidade por alguns dias. “Costumo deixar o livro ‘rodando’ no fundo da mente até sentir que tenho material suficiente para escrever. Quando isso acontece, geralmente concluo em dois ou três meses. Desta vez, foi um pouco mais demorado por causa dessa imersão”, explica.

DOMESTIC NOIR
O gênero escolhido é o domestic noir, um subgênero do suspense policial que foca nas tensões do ambiente familiar e cotidiano. “É menos explosivo que o thriller tradicional, mais psicológico, mais contido. É como algo cozido em fogo baixo”, define. “A ação vai sendo construída aos poucos. Em ‘Aqueles que Enterrei’, ela começa um pouco antes, mas ainda é um livro bem mais introspectivo do que outros que escrevi”.
Um dos eixos centrais do livro é a maternidade, tratada sob um olhar pouco comum no gênero. “Virou meio moda falar sobre maternidade no thriller, mas quase sempre de maneira negativa. E, sim, no meu livro ela também é retratada com suas dores, mas eu queria mostrar que não é errado querer ser mãe. O problema está na forma como a sociedade trata as mães — com culpa, julgamento, hostilidade mesmo”, comenta.
Claudia também incorpora à narrativa críticas à realidade da obstetrícia no Brasil. “Fala-se em ‘reforma obstétrica’ porque chegamos a um ponto em que pouquíssimas mulheres têm dignidade no parto. Só quem pode pagar — e, mesmo assim, nem sempre consegue escapar da violência”, denuncia.
A criação de personagens é, para ela, o verdadeiro motor da escrita. “Escrevo para construir personagens. Mais do que a trama, são eles que me movem. É um processo instintivo, de muitas camadas. Cada livro pede algo diferente. A maior qualidade de um escritor, para mim, é a empatia: conseguir pensar como outra pessoa”.
MERCADO BRASILEIRO
Mesmo com uma carreira sólida, Claudia reconhece os desafios de se escrever suspense e investigação no Brasil. “Lá fora, autores têm acesso a dados, manuais, cursos. Aqui, a realidade é outra. Falta estrutura, verba, os laudos demoram meses. E muitos policiais não compartilham informações por medo. Isso dificulta o trabalho, mas também torna a escrita mais desafiadora e criativa”.
Ela ressalta, no entanto, a força da literatura policial brasileira. “Tem muita gente escrevendo melhor do que os best-sellers estrangeiros. A Iza Artagão, por exemplo, é muito mais profunda e técnica do que a Freida McFadden. Mas ainda existe preconceito. As editoras preferem investir nos estrangeiros porque o público já conhece. Publicar nacional é mais barato, mas visto como arriscado”.
TENSÃO
Ao ser questionada sobre o que deseja provocar no leitor, Claudia é direta. “Quero que se sintam entretidos, tensos. Não escrevo para transformar vidas, mas se, além disso, o livro fizer alguém refletir sobre negacionismo, violência obstétrica ou a atuação de bons profissionais da saúde durante a pandemia, melhor ainda”.
Se tivesse que definir ‘Aqueles que Enterrei’ em uma palavra, ela escolhe sem hesitar: “Tensão”. Mas logo emenda: “Isolamento também. E talvez, humanidade. Porque eu realmente acredito que, sob pressão suficiente, qualquer pessoa pode fazer coisas horríveis. Até os bons”.
O livro ‘Aqueles que Enterrei’ está disponível na Amazon e no site da Editora AVEC.


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