
A relação entre arte, memória e território orienta a pesquisa da artista plástica Márcia Santtos. Na exposição ‘A Cidade como Identidade’, ela transforma construções antigas do bairro Vila Mathias em gravuras que investigam não apenas a estética urbana, mas sobretudo o vínculo afetivo entre pessoas e espaços. A mostra fica em cartaz na Futrica Economia Criativa (Rua Quinze de Novembro, 146 – Centro) até 21 de março.
As obras são produzidas a partir de matrizes feitas com embalagens cartonadas — o chamado tetrapak — explorando processos de gravação em relevo e em côncavo. A artista explica que toda imagem impressa nasce de uma matriz, e que o material escolhido define a técnica. “Na xilogravura, por exemplo, a matriz é de madeira. O nome vem do grego xylon, que significa madeira”, comenta.
Embora a gravura seja uma técnica de reprodução, cada impressão mantém sua singularidade. “Chamamos de múltiplos originais porque tudo é feito manualmente. Uma sai mais clara, outra com marcas, outra diferente. Cada uma tem seu próprio DNA”.
Márcia trabalha com gravura desde a adolescência e aprofundou a linguagem durante a formação artística. “Faço isso desde os 15 anos. Na faculdade conheci outras técnicas, fiquei dividida entre desenho e gravura — e acabei seguindo a vida inteira com os dois”.
Cidade como matéria-prima
A série nasceu de caminhadas pela Vila Mathias, onde funcionava seu primeiro ateliê. Enquanto coletava ervas daninhas para experimentos gráficos, passou a observar o entorno com outro olhar. “Comecei a andar pelo bairro, olhar o casaril e desenhar. Então pensei: como transformar essas edificações em gravura?”.
A resposta surgiu do próprio ambiente urbano. Ao encontrar embalagens descartadas, lembrou-se de artistas que utilizavam o material como matriz. “Está no lixo — e muitas casas também estão deterioradas. Essa precariedade da embalagem tetrapak dialoga com a precariedade de várias residências”.
Cada obra resulta de um processo que combina observação direta, fotografia e pesquisa histórica. “Eu fotografo, desenho, consulto mapas antigos e depois recrio a edificação à minha maneira. Não é apenas um retrato, há interpretação”.
As peças recebem o nome do endereço real das casas retratadas, reforçando o vínculo entre arte, memória e território.
Do plano ao volume
Além das gravuras bidimensionais, parte das obras é remontada em estruturas tridimensionais, formando pequenas construções de papel. “Eu imprimo, transfiro a tinta e depois reconstruo. Algumas ficam planas, outras se tornam tridimensionais. Na exposição há uma série inteira montada assim”.
A artista também experimenta diferentes soluções cromáticas. Algumas peças permanecem em preto e branco; outras recebem aquarela manual ou tonalizações com esponja. “Cada estampa pede uma solução. Não existe fórmula fixa”.
Projeto itinerante
A série ganhou impulso após a artista ser contemplada pelo ProAC em 2022, edital que viabilizou a produção e o registro do processo. No ano seguinte, um novo apoio permitiu a circulação da exposição por sete cidades do Estado.
Agora, a mostra chega a Santos a convite de Marina Paes, da Futrica Economia Criativa — um retorno simbólico para um projeto que nasceu da observação do próprio território santista. “É curioso: a exposição que levou Santos para outros lugares está chegando à cidade só agora”, observa a artista.
Arte como pertencimento
Mais do que registrar fachadas, o projeto discute memória urbana, patrimônio e identidade coletiva. As gravuras convidam o público a refletir sobre a preservação dessas construções, que ajudam a contar a história da cidade e do país. “Quando você mostra às pessoas o que existe ao redor delas, ensina a valorizar. Elas passam a se sentir pertencentes e cuidam melhor do lugar”.
Durante a mostra, a artista realiza uma oficina de gravura em tetrapak no dia 28 de fevereiro, às 15h, na própria Futrica Economia Criativa. A atividade é voltada a participantes a partir de 16 anos, não exige experiência prévia e terá vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada.
Márcia defende que preservar não significa congelar o passado, mas refletir sobre o que deve permanecer. “O principal da edificação é ser abrigo. Se continua cumprindo essa função, já tem valor”.
O que ela espera provocar no público é menos um olhar técnico e mais uma reação afetiva. “Gostaria que as pessoas resgatassem suas memórias. Casa é abrigo, é afeto, é de onde a gente veio. Espero que as imagens despertem boas recordações e façam valorizar o que está vivo na cidade hoje”.


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