Cena

Artista santista une mármore e design em exposição surrealista

10/06/2025 Isabela Marangoni
Felipe Berndt

O artista e escultor Guto Neves transita com naturalidade pelos universos do design, da arte e da escultura, demonstrando essa fluidez na mais recente exposição, ‘Sala de Jantar’. A mostra, que ocupa o novo espaço da Galeria Marilia Razuk, no Itaim Bibi, em São Paulo, propõe uma experiência imersiva ao reunir obras que evocam a atmosfera do ambiente que lhe dá nome. A exposição fica em cartaz até 26 de julho e marca uma nova fase do espaço.

Convidado pelas curadoras Cristina Tolovi e Luana Fortes a integrar a coletiva com mais de 20 artistas, Guto destaca o conceito que embasa a mostra. “Fiquei muito feliz com o convite, que dialoga com a artista surrealista Dorothea Tanning e sua obra Hôtel du Pavot, Chambre 202 (1970-1973). A exposição rompe as fronteiras entre arte, design e artesanato”.

Para ‘Sala de Jantar’, Guto trouxe uma escultura em mármore, previamente reservada. “Dialoga tanto com o surrealismo quanto com o concretismo. Ela trabalha o equilíbrio: uma base menor sustenta uma chapa maior. A base não é apenas suporte, mas parte integrante da obra”, conta.

TRAJETÓRIA MULTIFACETADA

A carreira artística de Guto teve início nos anos 1990, durante sua formação com os irmãos Fernando e Humberto Campana, no programa A Construção do Objeto (1999/2000), promovido pelo Museu Brasileiro da Escultura (MuBE). “Lá, o foco era o design em si”, recorda. Sua primeira exposição ‘Abitare Il Tempo’ ocorreu em Verona, Itália, seguida por mostras no Palazzo Pamphilj, sede Embaixada do Brasil em Roma e em Marselha, França. “Foi ali que a dimensão artística da minha produção começou a tomar forma, no sentido expositivo, da criação de obras únicas”.

Essa trajetória se expandiu para áreas como direção de cinema e design de acessórios para grandes marcas do São Paulo Fashion Week. “Fiz campanhas e passarelas para cerca de 30 marcas, entre elas Ellus, Companhia Marítima, Cori, Animale, Fórum e Neon”.

Foi nesse cenário que nasceu sua paixão pela joalheria. “Comecei a estudar joalheria de bancada para aprimorar o acabamento das minhas criações para passarelas e campanhas”.

Com o tempo, as joias passaram a ser autorais e exclusivas. “Eu mesmo as fazia na bancada de ourives e comecei a mostrá-las. Aos poucos, me tornei joalheiro”. Sua habilidade atraiu convites de marcas internacionais, entre elas a italiana Ego Concept, para a coleção ‘Nero’, onde foi o único brasileiro no casting. Há dez anos, dedica-se a criar joias sob encomenda para um seleto grupo de clientes.

A consolidação no universo das artes visuais veio com a seleção para o ArtSoul, maior marketplace de arte do Brasil, graças à curadora Cristina Tolovi. “Coloco minhas obras lá como se fosse uma galeria virtual, um espaço de visibilidade muito importante”.

MÁRMORE E MEMÓRIA AFETIVA

Durante a pandemia, Guto voltou seu olhar para a escultura, inspirado por fragmentos de Etaform — espumas industriais usadas em hospitais e embalagens — que colecionava. “Eu via beleza nesses desenhos e imaginei traduzi-los para o mármore, embora soubesse da dificuldade técnica e dos custos”.

Mas o mármore sempre esteve presente como memória afetiva. “Morei numa casa em Santos em que a entrada era revestida por mármore branco, algo que sempre me fascinou”. Entre seus ídolos, cita Constantin Brâncuși e Sérgio Camargo — este último o primeiro artista brasileiro a obter visibilidade internacional real esculpindo em Carrara e negro belga.

Com técnica e sensibilidade, Guto usou as espumas como moldes iniciais, imaginando como serras e água poderiam realizar encaixes tridimensionais. “Sempre pensei que se fosse para fazer esculturas, seria no mármore. Não o mármore figurativo do século XVI. Eu queria criar algo meu, rápido, concreto, com poesia, mas dentro da realidade da vida”. As primeiras esculturas foram esculpidas em mármore branco Sivec grego e, depois, em Nero Marquina. “A volumetria ficou muito coerente”.

SENSIBILIDADE E CONCEITO

O processo criativo de Guto não segue planos rígidos, mas uma sensibilidade atenta. “Arte só é arte quando toca o âmago. Se não toca, não importa se é Picasso ou Monet — olhe para outra coisa”. Ele se inspira no conceito japonês mitate, que propõe ver um objeto além de sua função original, dando-lhe uma nova vida artística.

Esse olhar permeia sua carreira, desde acessórios feitos com taxidermia e carvão até suas esculturas em mármore inspiradas em espumas descartadas. “Minha arte é uma não-função. Pura contemplação”.

UMA EXPOSIÇÃO COMO RUPTURA

Para Guto, ‘Sala de Jantar’ é uma ruptura na forma tradicional de expor arte. “É um barroco surrealista. Não segue os princípios do cubo branco minimalista. Tem papel de parede, móveis da avó, esculturas no chão, obras nas prateleiras”. Sua peça abre a mostra, dialogando com a arquitetura brutalista do prédio. “Foi um marco. Atrevida, nova. Acredito que esta exposição será lembrada no futuro como a reativação de um espaço experimental. Tudo pensado com muito cuidado pelas curadoras Luana e Cristina, e claro, pela Marília”.