Cena

Artista santista é selecionada pela quarta vez em Mostra Internacional

13/03/2026 Isabela Marangoni
Reprodução/Márcia Okida

A designer e artista visual santista Márcia Okida foi selecionada pelo quarto ano consecutivo para a Mostra Internacional de Humor Gráfico “Batom, Lápis & O Que Elas Quiserem”, vinculada ao tradicional Salão Internacional de Humor de Piracicaba. A iniciativa reúne trabalhos de artistas de diversos países e destaca a produção feminina no humor gráfico — área em que a presença das mulheres ainda é pouco visível. As obras ficam em cartaz no Barracão 14 do Engenho Central, em Piracicaba, até o dia 5 de abril, com entrada gratuita.

Além da participação no salão internacional, Márcia também apresenta a série “Mulheres Minimalistas – Ícones em Cor e Forma” no Festival da Mulher 2026, em São Vicente. A abertura acontece nesta sexta-feira (13), às 10h, na OAB – Subseção São Vicente. A mostra permanece em cartaz até o dia 31 de março e integra a programação do evento “Renda, Raiz e Rede — Mulheres que Criam Futuro”.

Salão Internacional
A notícia da nova seleção foi recebida com surpresa pela artista. “Eu já tinha sido selecionada três anos seguidos e pensei: ‘No quarto ano talvez não aconteça’. Então fiquei muito feliz quando soube”, conta.

Neste ano, Márcia enviou três retratos femininos que integram sua série autoral “Mulheres Minimalistas”: a artista Elke Maravilha, a ministra do Supremo Tribunal Federal Carmen Lúcia e a vereadora Marielle Franco. “Achei que duas delas dialogavam muito com o momento atual. Já a Elke, mesmo sendo menos lembrada hoje, tem um perfil muito característico, muito caricaturável, que combina com o salão”, explica.

Após quatro participações consecutivas, a artista afirma que passou a compreender melhor o perfil da mostra. “Não existe exatamente um padrão, mas com o tempo a gente vai percebendo o que pode dialogar com o salão. Meu trabalho é diferente, mais geometrizado, minimalista, com uma linguagem mais próxima do design do que da caricatura tradicional”, diz.

Outro motivo de orgulho, segundo ela, é dividir espaço com artistas que admira. “Eu sou muito fã da Laerte. Saber que estou no mesmo salão em que ela também está é um máximo”.

Para Márcia, o evento também tem um significado simbólico importante. “É o único salão no mundo com esse perfil, voltado especificamente para o humor gráfico feito por mulheres, uma categoria que ainda é muito invisibilizada”.

“Mulheres Minimalistas”
As obras selecionadas fazem parte da série “Mulheres Minimalistas”, composta por retratos geométricos e simplificados de mulheres marcantes da história e da cultura.

O projeto surgiu a partir da atuação de Márcia como professora de design e de uma inspiração no trabalho do designer japonês Ikko Tanaka, referência internacional no minimalismo visual. “Ele criou uma gueixa famosa usando apenas círculos de papel colorido. Aquilo sempre me emocionou muito. Quando vi essa obra ampliada em uma exposição no MASP, eu cheguei a chorar”, lembra.

A partir dessa referência, a artista decidiu criar suas próprias interpretações minimalistas. “Primeiro fiz uma gueixa para mostrar aos alunos como o minimalismo funciona. Depois pensei: vou fazer mulheres brasileiras. As primeiras foram Carmen Miranda e Maria Bonita”.

Com o tempo, o projeto se ampliou e hoje reúne 25 retratos. “Essas mulheres ficaram guardadas por muito tempo. Eu pensava em fazer uma exposição quando fosse possível. Depois acabei reunindo as obras para uma mostra na Gibiteca de Santos”.

Símbolos e significados
Cada retrato da série busca traduzir aspectos simbólicos das personagens dentro de uma linguagem gráfica sintética, baseada principalmente em cor e forma.

No retrato da ministra Carmen Lúcia, por exemplo, Márcia utilizou as cores da bandeira brasileira nos olhos da personagem. “Coloquei azul, verde e amarelo na sombra dos olhos para simbolizar o olhar da justiça voltado para o Brasil”.

Já na obra dedicada à vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, a artista optou por evitar referências diretas à violência. “Eu não queria falar da maneira como ela foi morta. Então busquei outro símbolo: o logotipo do Instituto Marielle Franco, que aparece no desenho como um elemento decorativo. Talvez poucas pessoas percebam, mas ele está ali”.

A figura de Elke Maravilha, por sua vez, surgiu quase naturalmente. “Ela já era uma caricatura ambulante. O cabelo enorme, a boca grande, tudo nela era muito expressivo”.

Exposição em São Vicente
Além da participação no salão internacional, Márcia também apresenta a série “Mulheres Minimalistas – Ícones em Cor e Forma” no Festival da Mulher 2026, em São Vicente.

A exposição reúne 25 obras e será aberta nesta sexta-feira (13), às 10h, na OAB – Subseção São Vicente. A mostra permanece em cartaz até o dia 31 de março.

Além dos trabalhos selecionados para o salão de Piracicaba, a exposição apresenta retratos exibidos em edições anteriores do evento, formando um panorama da série. “A ideia é que o público olhe e tente reconhecer quem são essas figuras. Eu não quis colocar legendas justamente para provocar essa curiosidade”, explica.

Entre as personagens retratadas estão nomes como Malala Yousafzai, Gal Costa, Beth Carvalho e Carmen Lúcia.

A mostra também marca um momento simbólico na trajetória da artista, que celebra 40 anos de carreira.

Mulheres conhecidas e anônimas
Para o futuro, Márcia pretende ampliar o projeto, incluindo também mulheres anônimas. “Tenho vontade de retratar mulheres da minha vida, como minha irmã, minha tia ou amigas. Mulheres que talvez o mundo não conheça, mas que têm histórias importantes”.

A ideia já começou a ganhar forma. “Fiz o retrato de uma amiga minha, a Cidinha Santos, e dei de presente. Foi a primeira mulher não famosa da série”.

Arte e representatividade
Para Márcia, o projeto também dialoga com a necessidade de ampliar a visibilidade feminina na cultura. “A gente ainda precisa ocupar muito espaço. Quando você pede referências profissionais, muitas vezes as pessoas citam homens primeiro — até as próprias mulheres”.
Segundo ela, essa desigualdade é ainda mais evidente no campo do humor gráfico. “Se eu tivesse que apontar uma área da arte ainda muito machista, seria o desenho de humor. É muito raro ver mulheres nesse espaço”.

Por isso, iniciativas como o salão de Piracicaba são fundamentais. “A gente precisa mostrar quem somos e quantas mulheres incríveis existem e existiram. A arte também é uma forma de contar essas histórias e dar visibilidade a elas”.