Cena

Aos 102 anos, Carolina Ramos lança Colheita

19/03/2026 Isabela Marangoni
Isabela Marangoni

Aos 102 anos, a escritora e trovadora Carolina Ramos lança Colheita, obra que reúne décadas de produção literária e afetiva. O livro será apresentado ao público neste domingo (22), a partir das 15h, no Salão Nobre da Sociedade Humanitária (Praça Patriarca José Bonifácio, 59, Centro) — espaço carregado de memórias para a autora, onde viveu momentos marcantes.

O evento promete ser uma celebração à altura de sua trajetória, atravessada por memória, improviso e sensibilidade — marcas também presentes em sua escrita.

Coletâneas e legado
“É raspa de tacho”, brinca Carolina. A obra reúne cerca de 600 trovas — selecionadas de um universo superior a quatro mil — além de 15 contos e aproximadamente 30 poemas e sonetos. A curadoria foi realizada em parceria com a biógrafa e editora Fabíola Savioli, com participação ativa da autora. “Fizemos uma pré-seleção com trovas de concursos e depois fomos resgatando outras que estavam fora”, explica Fabíola. O processo exigiu rigor: foram quatro revisões, motivadas pela precisão formal do gênero. “A trova é ingrata. Se você erra uma vírgula, compromete tudo”.

O título sintetiza esse movimento de reunião e permanência. “Colheita é justamente isso”, define Carolina. “A gente escreve sem ter muita noção do quanto produz. Quando percebe, sente falta de ver tudo reunido. Pensei: vou morrer e isso pode se perder. Então, resolvi organizar”.

A relação da autora com a escrita é, segundo ela, quase involuntária. “Eu não sento para ‘fazer uma trova’. Começo a escrever e depois vejo o que nasce”, diz. “Mas, ao mesmo tempo, a trova tem regras, métrica, ritmo. Ela nasce da inspiração, mas exige cuidado”.

Parte fundamental dessa trajetória passa pelo poeta Luiz Otávio, conhecido como o “príncipe da trova” no Brasil e seu segundo marido. “Graças a ele, a trova chegou ao nível que chegou no país”, afirma Carolina. Foi também por meio dele que ela se aproximou mais profundamente do movimento trovadoresco e de instituições como a União Brasileira de Trovadores.

Hoje, o movimento permanece ativo em diferentes estados, reunindo praticantes e preservando o gênero. Nesse cenário, Carolina ocupa lugar de destaque — reconhecimento consolidado, inclusive, com o título de “Princesa da Trova”, recebido em 2021. “Gostaria de ajudar a levar esse movimento adiante. Ele já tem seu lugar, mas ainda há muito a fazer”, afirma. “Me sinto bem situada, muito respeitada, graças a Deus”.

As origens de sua escrita remontam à juventude, na década de 1940, quando se formou no Colégio São José e iniciou a carreira como professora. Uma das histórias resgatadas no livro nasce desse período: o vínculo com um aluno órfão que se apegou à docente. “Não podíamos deixar essa crônica de fora. Ela revela um lado muito humano e carinhoso da Carolina”, destaca Fabíola.

O lançamento acontece em um espaço simbólico. “Foi ali que dancei minha primeira valsa com meu pai”, relembra a autora. A escolha também coincide com a celebração de seus 102 anos. “As coisas não acontecem por acaso. O último livro tinha que ser ali”, observa a editora.

Apesar da grandiosidade da obra, Carolina mantém a simplicidade ao falar de sua produção. “Não escolho favoritos. Cada texto tem seu lugar”, resume.

Mais do que um lançamento, o encontro mobiliza uma rede afetiva construída ao longo de décadas. Para lidar com a grande procura e preservar a autora, a equipe pensou em alternativas para os autógrafos. “Colocamos uma assinatura dela impressa na primeira página, com uma mensagem e uma trova”, explica Fabíola.

Lançamento
A expectativa é de casa cheia, com admiradores vindos de diferentes regiões. “Tem gente de Volta Redonda, de São Paulo, trovadores e acadêmicos de vários lugares”, conta. Para quem não puder comparecer, será disponibilizado um livro de mensagens que será entregue à autora.

O legado da trovadora também se projeta nas novas gerações. A neta, Mariana Ramos, já ensaia seus primeiros passos na escrita, enquanto pessoas próximas relatam a influência direta de Carolina em suas trajetórias. “Eu fui para a trova por causa da Carolina”, diz Fabíola, que chegou a ser premiada em seu primeiro concurso.

Valorização
Mais do que reconhecimento pessoal, Carolina deseja que a obra contribua para a valorização da trova. “Espero que o livro ajude no reconhecimento desse trabalho e que a trova continue avançando. É uma forma bonita, com mensagens elevadas”.

A fala traduz a experiência de quem acompanhou — e ajudou a construir — a história do gênero no Brasil. “A trova parece simples, mas não é. Em quatro versos, você precisa fechar um sentido completo, respeitando métrica e ritmo”, explica.

Nesse contexto, Colheita se apresenta como síntese de uma vida dedicada à palavra — e também como gesto de permanência. Ao reunir textos escritos ao longo de décadas, o livro reafirma não apenas a vitalidade de Carolina Ramos, mas a força de uma tradição literária que segue viva, em constante construção.