
Quem passa pela movimentada Avenida Ana Costa, em Santos, talvez não saiba que o nome homenageia uma mulher de vida intensa, marcada por tragédias e recomeços. Em Anna Costa: Muito Além de uma Avenida, a biógrafa Fabíola Savioli e o pesquisador Alejandro Nascimento mergulham em mais de uma década de pesquisa para revelar quem realmente foi a mulher por trás da via mais famosa da cidade.
Nascida em Maricá, no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 1855, há exatos 170 anos. “Ela era de uma família importante, ligada aos Azevedo Sodré, uma linhagem tradicional e abastada. O pai era fazendeiro, e não médico ou assessor de Saturnino de Brito, como já foi dito equivocadamente”, esclarece Alejandro.
Entre Rio e Santos
Anna Cândida de Azevedo Sodré viveu no Rio de Janeiro até se casar, em 1879, com o empresário português Mathias Costa, comerciante estabelecido em Santos. O casal teve seis filhos — um deles morreu ainda bebê — e viveu uma década de união. Em 1889, a trajetória de Anna sofreu um golpe brutal: Mathias, figura de destaque na sociedade santista, foi assassinado.
Viúva aos 34 anos e com cinco filhos pequenos, Anna retornou quase imediatamente a Maricá. Pouco tempo depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde se dedicou a obras de caridade e voltou a ocupar espaço público, embora de forma discreta. Em 1893, casou-se novamente, desta vez com José Bloem, dez anos mais jovem e filho de uma tradicional família ligada à navegação. “Curiosamente, o pai de José havia sido amigo de Mathias, e o próprio José conviveu com o casal em Santos antes da tragédia”, lembra Alejandro.
Anna faleceu em outubro de 1936, no Rio. Fez questão, no entanto, de manter o vínculo com o primeiro marido: em 1894, mandou trasladar os restos de Mathias, sepultado em Santos, para um ossário no Rio de Janeiro. “Hoje, repousa ao lado dos dois companheiros de vida”.
A pesquisa
A biografia nasceu de um trabalho de preservação iniciado em 2007, quando pesquisadores começaram a catalogar sepulturas históricas no Cemitério do Paquetá. “O que motivou a pesquisa foi justamente o silêncio em torno dela. Encontrávamos registros sobre Mathias, mas nada sobre Anna. Foi quase um mistério a ser resolvido”, explica.
O processo ganhou peso emocional após a morte do historiador Jaime Caldas, parceiro inicial do projeto, em 2008. “Concluir essa pesquisa virou uma responsabilidade, quase uma promessa pessoal. Era algo que ele queria oferecer de presente à cidade”, relembra o autor.
Os obstáculos foram muitos: documentos raros, registros com erros, genealogias fantasiosas e até fotografias equivocadas atribuídas a Anna. “Chegaram a inventar até um filho chamado Marinho, por uma leitura equivocada de ‘guarda-marinha’ em um documento”, conta Fabíola.

A imagem
O rigor da investigação resultou em correções fundamentais, como a primeira identificação da verdadeira imagem de Anna, descoberta descrita pelos autores como emocionante. “Foi uma emoção enorme quando finalmente vimos a foto dela. Primeiro porque ela não tinha nada a ver com as versões divulgadas. E depois porque era uma mulher muito bonita. O Mathias também. Foi como dar rosto a uma história esquecida”.
A avenida
Outro mito desfeito diz respeito à origem do nome da avenida. “Não foi desejo de moribundo, como já se contou. Desde 1886, antes mesmo do assassinato de Mathias, ele já havia doado terrenos à cidade em troca da homenagem à esposa”, explica Alejandro. A denominação quase se perdeu em 1918, quando um vereador sugeriu rebatizar a via em homenagem ao presidente norte-americano Woodrow Wilson. A proposta, porém, foi rejeitada.

Memória recuperada
O lançamento de Anna Costa: Muito Além de uma Avenida, na 1ª Feira Literária de Santos, promovida pela Academia Santista de Letras, revelou o impacto da pesquisa. “Vendemos 90 exemplares no primeiro dia. E receber o vídeo de Heloísa Costa, bisneta de Anna, emocionada ao ver a história da família resgatada, foi um momento inesquecível”, conta Fabíola.
Entre fotos, documentos e genealogias, a capa do livro traz a reprodução de um broche de joaninha dado por Anna a Heloísa, preservado pela família até hoje. “A joaninha representa transformação. Foi isso que buscamos: transformar a memória em verdade histórica”, diz Fabíola. “Estamos mudando uma história fictícia para uma história verdadeira. E isso não é só sobre Anna Costa. É sobre a necessidade de Santos conhecer seus personagens e valorizar sua própria história”, conclui.
Mais que uma avenida
A obra mostra que Anna Costa foi muito além de ser “a esposa de um comerciante assassinado”. Instruída, resiliente e mãe dedicada, atravessou perdas e construiu novos caminhos. Paradoxalmente, seu nome ficou gravado na pedra de uma avenida, mas sua história permaneceu esquecida por décadas. “Ela ficou conhecida pela avenida, mas desconhecida enquanto pessoa. Resgatar sua vida é fazer justiça a essa mulher que foi muito além de um nome de rua”.
Para adquirir um exemplar, entre em contato via e-mail [email protected] ou (13) 99704-6880.


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