Cena

Alguém realmente acha possível The Rock ganhar um Oscar de atuação?

14/10/2025 Gustavo Klein
Reprodução

A pergunta do título, que parece provocação, virou quase um mantra entre críticos e cinéfilos ao longo de 2025. Quando foi anunciado que Dwayne Johnson interpretaria Mark Kerr — o lendário lutador de MMA cuja vida pessoal é marcada por vícios, traumas e uma luta constante contra si mesmo — muitos torceram o nariz. E com razão. Coração de Lutador, dirigido por Benny Safdie e produzido pela A24, prometia ser o filme que finalmente daria ao MMA o tratamento dramático que o boxe já recebeu em obras-primas como Rocky, um Lutador e Touro Indomável. Mas o que chegou às telas foi um desastre com verniz artístico.

A proposta era ousada: mostrar o lado sombrio do esporte, a decadência emocional de um ídolo e a brutalidade que vai além do octógono. Safdie, conhecido por seu trabalho em Joias Brutas, trouxe sua estética nervosa e claustrofóbica para o projeto. A fotografia é granulada, com tons frios e uma câmera que parece sempre à beira de um colapso, acompanhando Kerr em corredores sujos, quartos de hotel e clínicas de reabilitação. A trilha sonora aposta em silêncios incômodos e ruídos ambientes, criando uma atmosfera sufocante. Tecnicamente, o filme tem momentos de brilho — especialmente nas cenas de luta, que fogem da coreografia hollywoodiana e apostam em uma brutalidade quase documental. Mas técnica não é tudo. E Coração de Lutador não tem alma.

A atuação de Johnson é, no máximo, mediana. Ele tenta se despir do carisma musculoso que o tornou ícone de ação – e que é seu grande talento, merecidamente – mas não consegue ir além de expressões genéricas de dor e raiva. Há uma tentativa de transformação física — ele aparece mais magro, com olhar perdido e postura curvada — mas falta densidade emocional. É como o The Rock em um cosplay de ator dramático. E isso não basta para sustentar um personagem tão complexo quanto Kerr. A performance soa ensaiada, artificial, como se Johnson estivesse mais preocupado em parecer vulnerável do que em realmente ser.

OSCAR?

E ainda assim há quem defenda que Johnson pode surpreender na temporada de premiações. Afinal, vivemos em um universo onde Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo levou a estatueta principal, quebrando expectativas e redefinindo o que é “cinema de Oscar”. A Academia tem se mostrado cada vez mais aberta a narrativas de redenção e reinvenção. O problema é que quando uma premiação vai neste caminho, de premiar narrativas mais do que talento, ela perde identidade e relevância.

Se Johnson conseguir capitalizar sua imagem pública, sua campanha emocional e o prestígio da A24, não é impossível que ele seja indicado — ou até vença. Hollywood adora uma boa história, e a do astro de ação que se vulnerabiliza pode ser irresistível para os votantes. Talvez não seja sobre a performance em si, mas sobre o momento.

O roteiro, escrito pelo próprio Safdie, oscila entre o drama e a denúncia social, sem mergulhar de fato em nenhum dos dois. A dependência química de Kerr, sua relação conturbada com treinadores e parceiros, e o universo sombrio do MMA são pincelados, mas nunca aprofundados. O filme parece ter medo de mexer demais com as pessoasdemais, de ser realmente incômodo. O resultado é uma narrativa que quer ser Touro Indomável, mas não tem a fúria de Scorsese; que quer ser Rocky, mas não tem o coração de Stallone.

E falando em comparações, elas são inevitáveis. Rocky, um Lutador (1976) é um exemplo clássico de como um filme de boxe pode ser, ao mesmo tempo, uma história de superação e um retrato humano e sensível. Sylvester Stallone, com todos os seus limites como ator, entregou uma performance sincera, crua, que conquistou o público e a crítica. O filme não era sobre vencer, mas sobre resistir.

Já Touro Indomável (1980), com Robert De Niro no auge, foi além: mergulhou na autodestruição de Jake LaMotta com uma intensidade quase insuportável. Era um estudo de personagem, uma obra de arte em preto e branco que mostrava o boxe como metáfora para a violência interna.

E há ainda Menina de Ouro (2004), de Clint Eastwood, que levou o drama esportivo a um novo patamar. A história de Maggie Fitzgerald, vivida com maestria por Hilary Swank, é devastadora. O filme começa como uma narrativa de superação e termina como uma tragédia. A luta ali não é só física, mas existencial. E quando Maggie morre, o espectador sente como se tivesse levado um soco no estômago. É cinema com C maiúsculo.

FRACASSO

Coração de Lutador, por outro lado, parece não saber o que quer ser. É um filme que tenta ser tudo ao mesmo tempo — e fracassa em cada tentativa. O resultado é uma obra fria, que se leva a sério demais, mas não entrega o que promete.

O fracasso comercial foi apenas a cereja amarga no bolo. Com um orçamento de US$ 50 milhões, o filme arrecadou menos de US$ 6 milhões em sua estreia nos Estados Unidos. Nem mesmo a campanha agressiva de marketing, que incluía entrevistas emocionadas de Johnson e aparições em eventos de MMA, conseguiu salvar o projeto. O público não comprou a ideia. E, sejamos francos, percebeu de longe que algo não batia.

Há quem diga que o filme será redescoberto no futuro, como um cult injustiçado. Mas é difícil acreditar nisso. A obra não tem camadas suficientes para sustentar revisões. E o público percebeu isso.

Não foi desta vez que o MMA ganhou seu clássico indiscutível, que elevou o esporte à categoria de arte. E, sinceramente, talvez seja hora de parar de achar que aquilo que The Rock entrega em Coração de Lutador é uma atuação digna de Oscar.