
A primeira noite do Carnaval de Santos 2026 prometeu — e cumpriu — muita alegria e samba no pé. Na Passarela do Samba Dráusio da Cruz, as escolas do Grupo de Acesso e Especial deram início aos desfiles carnavalescos da cidade. Ao longo da noite, sete agremiações passaram pela avenida espalhando cores, emoção e celebração.
Preparação e legado
O presidente da Liga Independente Cultural das Escolas de Samba de Santos (Licess), Fábio Przygoda destaca que a preparação para o Carnaval 2026 foi longa, cuidadosa e muito planejada. Segundo ele, a organização envolveu diálogo constante e ajustes estruturais importantes, entre eles a implantação do recuo da bateria na concentração, uma das grandes novidades deste ano. A mudança torna o esquenta e a organização das escolas mais eficientes antes da entrada na avenida.
Com 15 agremiações na programação, a expectativa é alta. “Cada ano precisa ser melhor que o anterior, e este tem tudo para ser o melhor Carnaval da história da cidade”, afirma. Para Przygoda, o maior desafio das escolas — especialmente do Grupo Especial — é a superação de si mesmas. Ele acredita que o Carnaval se fortalece pela entrega coletiva, pela força cultural dos enredos e pela capacidade das escolas de emocionar o público, seja no canto, na evolução ou nas alegorias. “Aqui dentro, todo mundo se transforma e dá o seu melhor”, resume.
O secretário de Cultura de Santos, Rafael Leal, destaca que o Carnaval deste ano carrega um significado especial ao marcar os 20 anos da retomada dos desfiles na cidade. A festa simboliza não apenas a consolidação do Carnaval Santista, mas também sua projeção como uma das principais forças do Carnaval brasileiro. “Somos hoje um carnaval metropolitano, que abraça toda a Baixada Santista, com forte impacto econômico e turístico, mas, acima de tudo, a maior manifestação cultural do nosso povo”, afirma.
Na avenida, os desfiles prometem narrativas que dialogam com a identidade da cidade, celebrando os 480 anos de Santos, a ancestralidade, o empoderamento feminino, a cultura afro-brasileira, os orixás e a relação histórica com o mar. Para o secretário, o Carnaval é o espaço onde o povo conta suas próprias histórias: “Aqui, quem dirige o espetáculo é o povo”.
Leal também celebra a homenagem que receberá no final do mês, em Salvador, na 13ª edição Berimbau de Ouro, concedido a pessoas que desenvolvem trabalhos relevantes em prol da cultura preta. Ele ressalta que, mesmo reconhecendo não ocupar um lugar de fala, a Secretaria de Cultura tem se empenhado na construção de políticas públicas permanentes voltadas à valorização da cultura afro-brasileira, com apoio do prefeito Rogério Santos. Entre as iniciativas, destaca o edital Arte Preta, um dos poucos do país voltados exclusivamente à cultura afro. Para o secretário, o reconhecimento é um sinal de que Santos está no caminho certo. “É o conjunto da obra. O Carnaval é fundamental nesse processo — a cereja do bolo”, conclui.
Grupo de Acesso
Abrindo a programação, a Escola de Samba Brasil apresentou o enredo “Hoje é Dia de Brasilidades”, um mergulho na riqueza cultural do país. Com as cores verde, amarelo, azul e branco, a agremiação exaltou as múltiplas identidades, sabores e tradições que formam a ancestralidade brasileira — e que também dão sentido ao próprio nome da escola.
De dimensões continentais, o Brasil surgiu na avenida como um mosaico vibrante de diversidade regional, cultural e étnica. Cerca de 500 integrantes desfilaram distribuídos em 14 alas, acompanhados por duas alegorias e um quadripé, compondo um espetáculo dedicado à pluralidade do país.
A emoção foi visível para o intérprete Tim Cardoso, que destacou os desafios enfrentados até o desfile. “Foi tudo muito difícil no começo: chuva, falta de espaço para ensaiar, o barracão só veio no segundo tempo. Mas ver a escola passar assim, no tempo certinho, com fantasias bonitas, foi muito emocionante. Espero que a gente consiga passar isso para os jurados e alcançar um lugar que, por muito tempo, parecia impossível”, afirmou.
Na sequência, a Império da Vila levou à avenida um tributo ao feminino com o enredo “Marias – Faces da Mulher”. O desfile homenageou as mulheres em suas múltiplas expressões, representadas pelas “Marias”, ressaltando seu papel fundamental na história da humanidade — da fé à ancestralidade — e sua presença cada vez mais forte na sociedade contemporânea. A escola contou com 700 componentes, organizados em 11 alas e três alegorias.
O mestre de bateria, André Rodrigues Fernandes ressaltou a importância da temática. “Pensamos nesse enredo porque as mulheres sofrem muito, especialmente diante de tantos casos de feminicídio. Quisemos mostrar na avenida a força da mulher no trabalho, em casa, em todos os lugares. E isso também se reflete na bateria, que tem muitas mulheres”, destacou.
Encerrando os desfiles do Grupo de Acesso na primeira noite, a Bandeirantes do Saboó apostou na fantasia e no humor com o enredo “Alice no Carnaval das Maravilhas, Loucura é Não Sambar”. A escola apresentou uma releitura carnavalesca de Alice no País das Maravilhas, convidando personagens clássicos a mergulharem na “loucura” de viver intensamente o Carnaval e a paixão pelo samba. A agremiação entrou na passarela com 350 componentes, divididos em oito alas e uma alegoria.
Luísa, que interpretou Alice na avenida, celebrou a experiência. “Foi uma grande honra, porque a Alice representa a Bandeirantes. Ensaiar com a fantasia foi divertidíssimo — tivemos até que criar um mecanismo para trocar de roupa. Foi incrível. Estou muito feliz e muito grata por esse papel”, contou.
Grupo Especial
Prestes a completar 50 anos de história, a União Imperial foi a quarta escola a desfilar na noite de abertura e a primeira do Grupo Especial a pisar na avenida. Vice-campeã em 2025, a agremiação apresentou o enredo “A Consagração em Orixá; Renascer em União é a Chave da Vida”, que revisita sua trajetória a partir da relação espiritual com os orixás ao longo de cinco décadas.
A narrativa percorre os ciclos da vida segundo a tradição iorubá — iniciação, consagração, proteção e renascimento — costurando fé, identidade e memória coletiva. O desfile reuniu cerca de 1.600 integrantes, distribuídos em 11 alas, além de três alegorias e um quadripé.
Fundador da escola, Jorge Jeremias de Campos, o Mestre Simonal, destacou o significado da data. “Eu tinha 18 anos quando fundei a União Imperial. Dei o nome, sou o fundador legítimo. Na época, havia gente ligada à Portela e à Mangueira, então ficamos com a águia da Portela e o verde e rosa da Mangueira. Essa homenagem de 50 anos é muito especial. Essas pessoas que vieram antes são as que fizeram a União Imperial ser grande. Eu digo que todos aqui são meus netos: sou pai da União Imperial, eles são filhos dela”, afirmou.
Outro homenageado da noite, o compositor Ricardo Peres celebrou a trajetória da escola. “São 50 anos de realização e felicidade. Cinquenta anos é uma vida dentro de uma escola de samba. Lá atrás, a gente nem imaginava que a União chegaria onde chegou. E o mais bonito é ver crianças de 5, 6, 7 anos cantando os sambas que a gente compôs, inclusive o hino da escola, que é meu e do Zinho. O enredo mistura a origem afro com passagens marcantes da história da União. Ficou muito bonito. Agora é torcer pelo título”, disse.
A Real Mocidade Santista levou à avenida uma homenagem direta à cidade com o enredo “Santos, 480 anos. Mundaréu do povo, cultura em revolução”. Em celebração ao aniversário do município, a escola se inspirou na obra de Plínio Marcos para construir um amplo retrato da produção cultural santista, destacando sua diversidade, força popular e efervescência criativa. O desfile contou com cerca de 1.200 componentes, organizados em 13 alas, além de três alegorias e um tripé.
O mestre-sala Lucas Rodrigues e a porta-bandeira Angélica Paiva destacaram a emoção de conduzir o pavilhão da escola em um desfile que homenageou os 480 anos de Santos. Segundo eles, a apresentação buscou evidenciar manifestações culturais da cidade que nem sempre são reconhecidas, como o samba, as escolas de samba e o hip hop. “Foi um momento muito especial. A Real trouxe um pouco dessa cultura que faz parte de Santos, e fomos honrados em conduzir o pavilhão nesse aniversário tão simbólico”, afirmaram. Para o casal, o desfile foi marcado pela alegria e pelo sentimento de missão cumprida. “Foi maravilhoso poder ostentar esse pavilhão. Acreditamos que cumprimos nosso dever, passamos com beleza e respeito. Que os orixás consagrem a escola e abram caminhos para todos nós”.
De volta ao Grupo Especial após conquistar o vice-campeonato do Acesso em 2025, a Vila Mathias retornou à avenida ostentando suas cores amarelo, azul e branco. O enredo “Vila Mathias Coroa o Rei Batuqueiro” homenageou Pai Felipe, líder de um dos maiores quilombos de Santos e símbolo de resistência, ancestralidade e preservação cultural.
Conhecido pelos batuques realizados em seu terreiro, Pai Felipe foi apresentado como figura central na manutenção das tradições afro-brasileiras na região. A escola levou à passarela 12 alas, três alegorias, um tripé e cerca de mil integrantes. Interpretando o homenageado, Guilherme de Oliveira falou sobre o retorno ao Grupo Especial. “É uma sensação muito boa. A gente veio para buscar e merece estar aqui. Esse é o nosso lugar. Pai Felipe é um rei forte, impactante, uma figura muito importante para Santos. Espero ter conseguido representar bem esse papel. É tempo de Vila”, afirmou.
Encerrando a noite de estreia do Carnaval santista, a Mocidade Independência, de Cubatão, celebrou seus 50 anos na Passarela Dráusio da Cruz com o enredo “No Reino das Fábulas, Era Uma Vez o Encanto”. Conduzida por seu símbolo, o Grilo Falante, a agremiação do Casqueiro trouxe 1500 componentes que convidaram o público a uma viagem por histórias que passam por gerações.
Mirella Souza, uma das rainhas da bateria, comemorou o marco especial para a escola. “A gente já entra emocionada até quando é o primeiro ano. Imagina 50 e o carinho que eu tenho do pessoal da bateria, nesta escola que estou desde 2006. Mexe com o nosso emocional”. Para a sambista, o desfile de 2026 foi traduzido por uma só palavra: “inesquecível”.



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