Inclusão

Afogamento é risco silencioso para crianças com TEA, diz especialista

31/01/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

O verão traz praia, piscina e diversão, mas também exige atenção redobrada quando o assunto é a segurança das crianças na água. No Brasil, o afogamento está entre as principais causas de morte acidental na infância. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2010 e 2023, o país registrou 71.663 mortes por afogamento. Dentro desse cenário, crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam um risco significativamente maior em comparação às crianças típicas.

A maior vulnerabilidade está associada a fatores como a atração pela água e a dificuldade em reconhecer situações de perigo. Segundo a especialista em Psicomotricidade Aquática Amanda Godoy, essas ocorrências estão diretamente ligadas a características próprias do transtorno, como limitações na comunicação, ausência de noção de risco e comportamentos de fuga desencadeados por estímulos sensoriais. “Elas não reconhecem adequadamente situações de risco. Piscina, rio ou praia não são percebidos como ambientes perigosos”, explica. “Além disso, muitas crianças com TEA não verbalizam e não conseguem expressar o que querem ou pedir ajuda”.

Outro fator determinante é o forte apelo sensorial da água. O brilho, o movimento e a sensação corporal tornam o ambiente aquático altamente atrativo. “A água é um estímulo. Ao entrar, há uma percepção corporal muito intensa, o que faz com que a criança se afaste de um local seguro para se aproximar da água, sem entender o risco”, afirma Amanda.

Durante o verão, quando praias e piscinas passam a fazer parte da rotina das famílias, os acidentes tendem a aumentar. De acordo com a especialista, muitos casos acontecem em intervalos mínimos de distração dos responsáveis. “O afogamento é silencioso, rápido e imprevisível. Muitas vezes não há grito nem pedido de ajuda, especialmente quando a criança não verbaliza”.

Terapia como prevenção
Diante desse cenário, Amanda destaca a psicomotricidade aquática como uma estratégia fundamental de prevenção. Diferente da natação tradicional, a abordagem não tem como objetivo principal o aprendizado técnico de estilos de nado, mas o desenvolvimento global da criança. “A natação é uma aprendizagem esportiva, técnica e padronizada. A psicomotricidade aquática é uma intervenção terapêutica. Usamos a água como recurso para o desenvolvimento cognitivo, emocional e motor”.

Segundo ela, a primeira habilidade trabalhada nas sessões é a sobrevivência no meio líquido. “Antes de qualquer conteúdo terapêutico, a prioridade é autonomia e sobrevivência. A criança precisa saber cair na piscina e não se afogar. Esse é o primeiro e principal objetivo”.

As sessões envolvem o desenvolvimento da consciência corporal, controle postural, coordenação motora, equilíbrio, organização sensorial e autorregulação emocional. Os atendimentos são individualizados, respeitando as necessidades de cada paciente, embora também possam ocorrer em pequenos grupos, estimulando a interação social.

A psicomotricidade aquática pode ser iniciada a partir dos seis meses de idade, mediante autorização médica, e não é restrita a pessoas com TEA. “Pessoas típicas e atípicas podem se beneficiar. A psicomotricidade é movimento, e a água é um recurso terapêutico riquíssimo”, ressalta.

Informação salva vidas
Além da terapia, a especialista reforça a importância de medidas preventivas no ambiente doméstico e em locais de lazer. “Monitoramento constante é essencial. Piscinas precisam estar sempre protegidas e fechadas. Prevenir não é exagero, supervisionar não é paranoia”.

Amanda também defende que o tema seja mais discutido. “A gente sempre acha que nunca vai acontecer com a gente, mas o afogamento acontece em segundos. Ensinar segurança na água não é luxo, é cuidado. A água pode e deve ser um espaço de alegria, desenvolvimento e vínculo, desde que seja segura”.

Pioneira na psicomotricidade aquática na Baixada Santista, ela afirma que, apesar de ainda ser uma terapia pouco conhecida, o método tem conquistado reconhecimento. “Hoje, muitos médicos já indicam porque estão vendo os resultados. Informação, atenção e preparo salvam vidas. Esse é o nosso principal objetivo”.