Metrópole

A fortaleza distante

01/07/2026 Sergio Rezende
Divulgação

Pulei da cama como se estivesse atrasado para a escola em época de prova, mas era apenas a animação de mais um fim de semana batendo à porta. Eu gostava de pescar. Então arrumei uma dupla. Meu vizinho Cabeça era gente boa. Entendia mais da arte da pesca do que eu e, com o tempo, fui aprendendo com suas dicas.

Pegávamos o ônibus na Avenida Conselheiro Nébias e descíamos, após longos minutos, no ponto final da linha 04, na Ponta da Praia. Encostávamos na mureta do calçadão e já sentíamos o cheiro da maresia. Logo começávamos a montar os equipamentos. Da mochila saíam a vara, as linhas, os anzóis e as iscas guardadas na caixa de isopor. Para matar a fome, biscoito e refrigerante enganavam o estômago.

Nem sempre pescávamos daquele lado do canal. Quando a maré não ajudava, retirávamos algumas moedas do bolso e embarcávamos numa pequena barca. O motor produzia um ronco constante enquanto seguíamos para a outra margem.

Na travessia, o vento tocava o rosto. A passagem de um navio agitava as águas e fazia a embarcação balançar. Para quem não estava acostumado, era impossível escapar de um frio na barriga.

O tempo na Praia da Pouca Farinha parecia correr mais devagar. Cercada por morros cobertos pela Mata Atlântica, era um lugar genuíno. A pesca artesanal e a rotina dos moradores davam identidade ao cenário.

Geralmente pescávamos perto da parada das barcas, ao lado do píer. Dessa vez, porém, seguimos a sugestão de um senhorzinho e fomos para o outro lado da praia tentar a sorte. Caminhamos de chinelo por uma trilha, carregando os apetrechos de pesca. Putz, esquecemos o repelente. Os mosquitos venceram.

O destino eram algumas pedras frequentadas por pescadores. Naquele dia, porém, não havia ninguém por ali. Talvez fosse um mau presságio: os peixes não estavam para conversa.

Ao nos aproximarmos, vimos um enorme paredão branco. Quanto mais avançávamos, mais aquela construção despertava nossa curiosidade. A pesca já havia ficado em segundo plano.

Encostei numa das muralhas e observei a paisagem. O mar batia contra as estruturas antigas e contra as pedras que as protegiam. O cheiro de natureza invadia suavemente o ambiente. A construção parecia feita não apenas para defesa, mas também para contemplar o encontro entre o mar e a montanha.

Foi então que a memória fez a ligação.

— Nossa… é aquela fortaleza.

A mesma que, durante as noites de calmaria, surge distante aos olhos de quem a observa de Santos, do outro lado do estuário. Um pequeno ponto branco iluminado entre morros escuros e a natureza adormecida.

Só naquele momento percebemos que estávamos diante da Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande.

Passamos a explorar cada canto daquela novidade. Talvez poucos saibam seu nome, mas quase todos que navegam pelo canal já a contemplaram em silêncio, imaginando os mistérios escondidos entre suas muralhas.

Dois canhões permaneciam apontados para a entrada da barra. Pena que naquela época ainda não existia esse tal de smartphone, senão o Cabeça já ia querer registrar uma selfie ao lado dos canhões para atualizar o feed da pescaria. E os peixes? Ah… esses ficam para a próxima oportunidade. A volta para casa vinha sem peixe no balde, mas carregada de histórias para contar no intervalo da escola.