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A outra filha

27/06/2026 Rafael Medeiros
A outra filha | Jornal da Orla

Se José Saramago estava certo ao dizer que a melhor literatura é aquela que desassossega, Annie Ernaux pode ser considerada a camisa 10 (é tempo de copa, vale a referência) desse movimento. Ninguém passa incólume pelos livros da escritora francesa. Sempre voltados à autobiografia, seus títulos pontuam episódios bastante singulares (como em Paixão Simples e O Acontecimento) ou traçam um espectro mais alargado de sua existência (as seis décadas do belíssimo Os Anos). Certo é que o leitor sairá de qualquer deles desconjuntado, na melhor acepção do termo. 

Nas breves sessenta páginas de A Outra Filha, Ernaux escreve uma espécie de carta a uma irmã que faleceu antes da autora nascer. O fato, por si só, já representaria uma dor bastante representativa; entretanto, a abordagem foi magistralmente trabalhada para se fixar sobre um aspecto particularmente perturbador: seus pais nunca falaram sobre o assunto. Foi ouvindo ao acaso uma conversa entre a mãe e uma vizinha que Ernaux, ainda muito criança, soube que teve uma irmã, que ela morreu de difteria aos seis anos. Foi nesse dia que escutou uma frase que a acompanharia para sempre: “ela era mais boazinha do que aquela ali”. Aquela ali era, evidentemente, ela. 

A partir daí, uma série de desafortunados atos confirmam a omissão e constrangem a família, tudo para manter a ficção até as últimas consequências. Imagine enterrar o pai bem ao lado da sepultura da filha nunca mencionada. Ou abrir um álbum de família e ouvir de um parente bêbado que a menina escanteada na foto era sua irmã. Sem culpar os pais – a autora não os censura, por compreender que eles não poderiam imaginar o que essa dor causaria à criança que está viva -, Ernaux tece, com a coragem, a beleza e a erudição que lhes são próprias, uma carta que nunca será lida pela destinatária. Mas nós, seus leitores, lemos, Annie. E sentimos tudo. 

Motivos para ler:

1- Annie Ernaux, pesquisadora, professora e escritora francesa, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2022. Forjando um estilo muito próprio – alguns o chamam de autobiografia impessoal -, a escritora ganhou projeção e se tornou um merecido sucesso mundial. É daquele tipo de obra que, depois de ler um título, você desejará ler tudo; 

2- Dentre tantos fatos e atos impactantes descritos neste pequeno livro, um deles nos pareceu muito significante: os pais sempre diziam que só poderiam ter uma única filha, dadas as conjunturas econômicas da família. Eis o ponto nevrálgico do texto: o modo como Ernaux desenvolve a ideia de que, para ela nascer, foi preciso que sua irmã morresse;   

3 Causou polêmica a fala de Aurora Bernardini, tradutora e professora da USP, ao proclamar que Annie Ernaux seria só uma best-seller, interessante até certo ponto mas nada muito além disso. Com o devido respeito à competente e experimentada pesquisadora, Ernaux possui uma invulgar habilidade de transfigurar terrores humanos em texto, alcançando uma notável excelência nesse processo. Nossa opinião é a de que o Nobel foi absolutamente merecido. Cabe a você, leitor, julgar.