Cena

Masterchef não é treinamento para a guerra e não precisa de polêmicas

19/06/2026 Gustavo Klein
Reprodução/Redes Sociais

O episódio desta semana do MasterChef Brasil ficou marcado por duas polêmicas que dominaram as redes sociais. A primeira envolveu o chef Henrique Fogaça, que se recusou a provar o prato de uma participante após criticar duramente seu preparo. Entre reclamações sobre o excesso de vinagre e a textura do pão, o jurado elevou o tom, levando a competidora às lágrimas.

A segunda controvérsia surgiu quando uma participante usou a expressão “comida de preto” ao comentar um prato. A fala foi alvo de críticas e acusações de racismo. Posteriormente, ela afirmou que se referia à comida e não às pessoas, negando qualquer intenção preconceituosa. Ainda assim, o episódio abriu um debate sobre o peso histórico de determinadas expressões e a responsabilidade de quem participa de um programa de grande audiência.

As duas situações, porém, levam a uma reflexão maior sobre o ambiente criado pelo reality. Há muito tempo o MasterChef parece apostar na ideia de que cozinhar é sinônimo de suportar gritos, humilhações e pressão psicológica extrema. O argumento de que “uma cozinha profissional é assim” pode até encontrar exemplos na velha guarda da gastronomia, mas não justifica transformar a agressividade em espetáculo.

Uma coisa é fazer críticas técnicas e apontar erros que precisam ser corrigidos. Outra, bem diferente, é constranger participantes diante das câmeras ou usar o medo como ferramenta de avaliação. Os competidores são cozinheiros amadores em busca de aprendizado e de uma oportunidade de crescimento, não recrutas em treinamento militar.

A própria gastronomia moderna vem abandonando a figura do chef autoritário, valorizando ambientes mais colaborativos e respeitosos. Criatividade, concentração e trabalho em equipe costumam produzir resultados melhores do que intimidação.

O problema é que os realities descobriram que conflitos rendem audiência. Quanto maior o barraco, maior a repercussão nas redes sociais. Só que existe um preço para isso: a mensagem de que excelência só pode ser alcançada por meio da humilhação.

Cozinha exige disciplina, técnica e capacidade de trabalhar sob pressão, mas também exige sensibilidade, dedicação e amor pelo que se faz. Afinal, grandes pratos são feitos para proporcionar prazer e criar memórias afetivas. Talvez o MasterChef não precise escolher entre entretenimento e gastronomia, mas lembrar que o principal ingrediente de qualquer boa cozinha nunca foi o grito, e sim a paixão por cozinhar.