Cena

Cineclube em Santos prova que o cinema ainda pode ser um ritual

18/06/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Há uma pequena ironia em assistir a Casablanca em 2026. O filme está prestes a completar 84 anos e, ainda assim, encontrá-lo pode ser mais difícil do que encontrar o último lançamento de Hollywood. Na era dos algoritmos, em que plataformas de streaming adicionam e removem títulos sem cerimônia, muitos clássicos desapareceram das vitrines digitais. O espectador contemporâneo pode ter acesso a milhares de filmes, mas nem sempre àqueles que ajudaram a inventar a linguagem do cinema (mesmo que Casablanca seja uma exceção).

É justamente nesse vazio que nasce a vocação do CineZen Clube, projeto criado em Santos pelo jornalista, crítico de cinema e produtor cultural André Azenha. Uma vez por mês, sempre no terceiro sábado, a Cinemateca de Santos se transforma em um pequeno refúgio para quem acredita que ver um filme não é apenas apertar o play.

A experiência começa antes da projeção. Há um vídeo exclusivo contextualizando a obra, material complementar disponível por QR Code, pipoca gratuita, café, sorteios de brindes e, principalmente, uma conversa depois que as luzes se acendem. O objetivo é simples e, ao mesmo tempo, ambicioso: devolver ao cinema sua dimensão coletiva.

A próxima sessão, marcada para este sábado, às 19h30, escolheu um título que praticamente dispensa apresentações: Casablanca.

Lançado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o filme dirigido por Michael Curtiz parecia destinado a ser apenas mais um drama romântico de estúdio. Tornou-se um dos maiores clássicos de todos os tempos. Vencedor de três Oscars, incluindo Melhor Filme, conta a história de Rick Blaine, interpretado por Humphrey Bogart, um americano expatriado que administra um café na cidade marroquina de Casablanca e vê seu passado ressurgir quando a antiga paixão, Ilsa Lund, interpretada por Ingrid Bergman, entra pela porta acompanhada do marido, um líder da resistência antinazista. A trama é uma mistura improvável de romance, espionagem, guerra e dilemas morais. Mas sua permanência no imaginário popular talvez esteja em outro lugar. Casablanca fala sobre escolhas. Sobre abrir mão da felicidade pessoal em nome de algo maior. Sobre exílio, saudade e esperança. E sobre pessoas comuns tentando agir corretamente em tempos extraordinários.

As frases atravessaram gerações. “Nós sempre teremos Paris”. “Toque outra vez, Sam”. “Este pode ser o começo de uma bela amizade”. Algumas delas, curiosamente, nunca foram ditas exatamente da forma como a memória coletiva acredita. Mas isso pouco importa. O filme entrou para a cultura popular de uma maneira que poucos conseguiram.

Exibi-lo em tela grande também é uma forma de lembrar que certos filmes foram feitos para serem compartilhados. O silêncio da plateia, o riso coletivo, a expectativa antes da cena mais famosa e a discussão que vem depois fazem parte da obra tanto quanto as imagens em preto e branco.

Essa percepção acompanha a trajetória de André Azenha. Jornalista de formação, crítico de cinema por vocação e produtor cultural por insistência, ele se tornou um dos nomes mais ativos na defesa da cultura audiovisual na Baixada Santista. Seu trabalho vai muito além da cobertura jornalística. Há anos atua na promoção de festivais, debates, encontros e iniciativas voltadas à formação de público.

É também o idealizador e curador do Santos Film Fest, evento que consolidou espaço no calendário cultural da região ao reunir produções nacionais e internacionais, homenagens a grandes artistas e atividades educativas. Em uma época em que boa parte do consumo cultural acontece de forma individualizada, Azenha aposta no encontro presencial como ferramenta de transformação.

O CineZen Clube parece ser uma extensão natural dessa filosofia. A ideia não é apenas exibir clássicos. É criar contexto. Explicar por que aquele filme foi importante, quais influências exerceu, em que momento histórico surgiu e por que ainda vale a pena vê-lo décadas depois.

Talvez esse seja o maior mérito da iniciativa. Em vez de tratar os clássicos como peças intocáveis, eles são apresentados como aquilo que sempre foram: histórias capazes de emocionar pessoas comuns.

Em Santos, isso acontece em uma noite de sábado, com pipoca, café e conversa. Enquanto o streaming promete conveniência, um cineclube oferece algo que a tecnologia ainda não conseguiu reproduzir: a sensação de assistir a um grande filme cercado de desconhecidos que, por algumas horas, compartilham as mesmas emoções. A Cinemateca de Santos fica na Rua Ministro Xavier de Toledo, 42, no Campo Grande.