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Dura para sempre e depois acaba

14/06/2026 Rafael Medeiros
Dura para sempre e depois acaba | Jornal da Orla

Um cenário absurdo e caótico é apresentado ao leitor logo nas primeiras páginas deste livro: decrépitos mortos-vivos, que nada lembram da vida senão de algumas memórias descontextualizadas, amontoam-se num hotel. Convivem (embora “viver” não seja a palavra mais exata) naquele espaço, no lusco-fusco de uma suposta existência, tentando compreender o que se passou e o que virá. 

Uma apressada interpretação da sinopse do romance poderia levar o leitor a imaginar que se trata de mais um título de terror zumbi. Entretanto, é como sempre falamos: tudo pode ser contado de outra maneira. O que inicialmente aparentava ser um roteiro batido de um filme B de horror se convola em uma odisseia filosófica quando a protagonista (um fragmento do que outrora foi uma mulher) decide partir rumo ao Oeste. É lá, à beira do oceano, que a morta-viva guarda em seu inexistente coração uma pungente recordação de um tempo em que foi amada, de um tempo em que foi feliz.

Se a primeira aproximação com a história remete a um clássico thriller zumbi, é do meio em diante que tudo muda: o cenário se abrirá – tanto no físico como no meditativo – e dará uma nova dimensão ao intrigante enredo. A protagonista zumbi, diferentemente dos seus aloprados pares, gradativamente ganha uma consistência humanística (sente o luto, a solidão, o vazio existencial, o amor), o que a motiva a seguir viagem em busca de uma miragem afetiva. Eis aqui algo nunca antes visto: uma história de zumbi com fundamentos existenciais. E, sem embargo das caquéticas circunstâncias, é uma história bonita.  

Motivos para ler:

1- Anne de Marcken, artista estadunidense, ganhou enorme destaque com Dura para sempre e depois acaba, seu romance de estreia. A crítica o recebeu muito bem e, de saída, já arrematou singulares prêmios literários (o prestigioso Novel Prize e o criterioso Ursula K. Le Guin). É, como procuramos expor, uma história que se ancora num temário curioso para desenvolver uma narrativa muito sensível;

2- O leitor começa a perceber, ao longo da história, que os mortos-vivos vivem num mundo pós-apocalíptico junto com os humanos. Há um episódio terrível em que a protagonista encontra uma velha senhora. Terrível porque as condições são degradantes, mas paradoxalmente é muito comovente. Esse, ao fim de tudo, é o grande trunfo deste livro: colocar, frente a frente, o grotesco e a dignidade. O resultado é brilhante;

3 Um livro pode ser lido de diversas maneiras. Esta é justamente a diferença entre texto e significado: as palavras estão ali, plasmadas no texto; no entanto, é o processo interpretativo que dará significado àquele texto. Alguns romances – é o caso de Dura para sempre e depois acaba –  são carregados de plurais significados. Afinal, por que eleger, para protagonizar a história, a figura de uma maltrapilha morta-viva, que ruma em direção a um afeto utópico literalmente se despedaçando pelo caminho? O leitor atento notará as referências.