Saúde

Beber água em excesso pode prejudicar o organismo

18/04/2026 Isabela Marangoni
Reprodução Freepik

Beber água é essencial para o bom funcionamento do organismo — mas o excesso também pode trazer riscos importantes à saúde. Em uma era em que o bem-estar e os hábitos saudáveis ganharam status de estilo de vida, a hidratação deixou de ser apenas uma recomendação médica para se tornar também um comportamento cultural — e, em muitos casos, estético.

Nos últimos anos, garrafas e copos térmicos passaram a ocupar lugar de destaque no cotidiano, especialmente entre os jovens. Mais do que objetos funcionais, eles se transformaram em acessórios que acompanham rotinas e ajudam a traduzir identidades.

A estudante Beatriz Lopes incorporou o hábito de levar água para todos os lugares há cerca de três anos, ao perceber que se hidratava pouco. “Comecei a me preocupar mais com a saúde e vi que bebia pouca água no dia a dia”, conta. Desde então, a garrafa virou item indispensável. “Hoje é automático, não saio de casa sem ela”.

Sem controle rígido da quantidade ingerida, ela usa a própria garrafa como referência. “Tento beber pelo menos dois litros por dia.” Para Beatriz, o hábito vai além da saúde. “Todo mundo anda com garrafa, principalmente as maiores. Tem a parte da saúde, mas também existe uma influência social e estética”.

A relação com o objeto pode até ser afetiva. “Gosto de garrafa bonita, de uma cor que eu goste. Tenho apego à minha garrafa lilás, não consigo trocá-la”, diz.

A percepção é semelhante à de Bruna Locatelli, que adotou o hábito após a pandemia. “Foi quando começou a ‘moda’ das garrafas e passei a focar mais em academia, alimentação e estilo de vida saudável”, explica.

Diferentemente de Beatriz, ela mantém um controle mais rigoroso. “Costumo medir pelo número de garrafas. Tento encher a de um litro pelo menos três vezes por dia”. Para Bruna, o fenômeno também revela aspectos sociais. “Virou moda e até símbolo de status. O estilo de vida wellness está em alta e a saúde virou símbolo de luxo”.

Apesar disso, ela reconhece os benefícios. “Eu bebo muito mais água com a garrafa, e isso melhora minha qualidade de vida”. A estética, segundo ela, funciona como incentivo. “Ter uma garrafa bonita até me estimula a beber mais”.

O médico nefrologista Lucio Silva chama atenção para um problema ainda pouco discutido: a intoxicação por água, também conhecida como hiper-hidratação. “Beber água em excesso pode trazer consequências para o organismo como um todo”, explica. O quadro ocorre quando o consumo ultrapassa a capacidade do corpo de processar o líquido. “Há uma diluição dos eletrólitos no sangue, especialmente do sódio, o que pode se tornar perigoso”.

A principal complicação é a hiponatremia, caracterizada pela baixa concentração de sódio no sangue. “Pode ser grave, principalmente em idosos ou pessoas debilitadas”, alerta.

Quanto e como beber
Segundo o especialista, há um parâmetro geral: cerca de 30 ml de água por quilo de peso corporal ao dia. Ainda assim, a forma de consumo é determinante. “O ideal é ingerir água ao longo do dia, e não em grandes volumes de uma só vez. Isso pode sobrecarregar o organismo”, orienta.

Sinais de alerta
O corpo costuma indicar quando algo não vai bem. No caso da hiper-hidratação, alguns sinais merecem atenção. “Urina excessivamente clara, quase transparente, já é um alerta”, diz o médico.

Outros sintomas incluem inchaço, irritabilidade e confusão mental. Em quadros mais graves, podem surgir náuseas, vômitos, dificuldade respiratória e convulsões. “A evolução pode levar a situações graves, como coma e até óbito”, completa.

Pessoas com doenças renais, especialmente em estágio avançado, precisam de atenção redobrada. “Nesses casos, o organismo perde a capacidade de eliminar água adequadamente, o que pode levar ao acúmulo de líquido e afetar órgãos como cérebro, pulmão e coração”. Pacientes com doenças cardíacas também estão entre os grupos de maior risco.

Desinformação
Para o especialista, parte do problema está na ideia equivocada de que beber água em excesso é sempre benéfico. “O uso constante de garrafas pode estimular um consumo automático, sem que a pessoa perceba os limites do próprio corpo”, afirma.

Além disso, o cuidado com a higiene é essencial. “Garrafas reutilizáveis devem ser lavadas diariamente, com água e detergente neutro, para evitar contaminação por bactérias e vírus”.

Beatriz segue essa rotina. “Lavo todos os dias, com água, detergente e uma escovinha, principalmente no canudo”. Uma higienização mais profunda deve ser feita ao menos uma vez por semana.

Equilíbrio é a chave
Para manter uma hidratação adequada, observar o próprio corpo ainda é o melhor guia. “A cor da urina é um bom indicativo: amarelo claro sugere hidratação adequada; escura indica falta de água; transparente demais pode ser sinal de excesso”, explica Lucio. Outros sinais incluem mucosas úmidas, pele elástica e ausência de sede.

No fim, o recado é simples: beber água é fundamental — mas, como em quase tudo, o equilíbrio continua sendo a melhor medida.