
Santos amplia suas frentes culturais e passa a se destacar também no turismo de terror. Idealizado por Dino Menezes, o Passeio Assombrado vem ganhando projeção nacional e já figura entre os maiores do gênero no Brasil. Na última edição, realizada em 13 de março, cerca de 350 pessoas percorreram o Centro Histórico em uma experiência que combina narrativa, performance e memória.
Criado em maio de 2024, o projeto nasce do encontro entre teatro, literatura e pesquisa histórica, com inspiração no livro Contos de Terror e Lendas Macabras da Ilha de Santos. O roteiro entrelaça episódios como a invasão do pirata inglês Thomas Cavendish, o crime da mala e relatos de aparições na Bolsa do Café, convidando o público a revisitar a cidade sob uma perspectiva pouco explorada — onde história e imaginação se cruzam a cada esquina.
O crescimento do passeio chama atenção inclusive quando comparado a iniciativas semelhantes pelo país. A partir de um levantamento realizado com o pesquisador Ivo Felipe, Dino identificou um diferencial expressivo. “Entre tantos passeios interessantes que existem no Brasil, o de Santos se destaca pelo público”, afirma. Enquanto outras cidades costumam reunir cerca de 80 participantes por edição, o passeio santista frequentemente ultrapassa essa marca.
A adesão superou as expectativas iniciais. “Eu achava que ficaria entre 100 e 150 pessoas, mas fui vendo que só crescia”, conta. Na última edição, o público se aproximou de 400 participantes, exigindo ajustes na produção. “A gente quis entender até onde dava para chegar e ampliou a equipe para acompanhar esse crescimento”.
A expansão já está em curso. Entre os planos, estão experiências em novos formatos, como edições realizadas nos bondes turísticos — em diálogo com a Secretaria de Turismo — e roteiros em espaços como o Monte Serrat, ampliando o alcance da proposta pela cidade.
Parte desse avanço se explica pela presença digital. Parcerias com criadores de conteúdo especializados em terror têm ampliado a visibilidade do passeio nas redes sociais. “Essas colaborações fazem muita diferença. Os influenciadores vêm, divulgam as histórias e isso impacta diretamente no interesse do público”, explica Dino. Alguns conteúdos chegam a centenas de milhares de visualizações.
O engajamento também se sustenta no boca a boca. Mais de 5 mil pessoas já participaram da experiência, e não é raro encontrar frequentadores recorrentes. “Tem gente que volta e traz amigos e familiares. Existe um público fiel, que acompanha todas as edições”, diz.
Mais do que entretenimento, o passeio se afirma como ferramenta de valorização do patrimônio histórico e urbano. Ao percorrer o Centro Histórico à noite, o público acessa espaços e narrativas pouco conhecidos, ressignificando a relação com a cidade. “Há lugares por onde muitas pessoas nunca passaram. Quando entram na prefeitura, por exemplo, se surpreendem com a beleza do espaço. Saem com outra visão de Santos”, observa.
A proposta imersiva é um dos principais diferenciais. Em vez de uma experiência passiva, o público participa ativamente do percurso. “É como um teatro a céu aberto. Você caminha, interage, faz parte da história. Isso torna tudo mais intenso”, resume.
Entre os relatos que mais impactam estão a história de Maria Féa e a invasão de Thomas Cavendish, em 1591. “Muita gente se surpreende ao descobrir que Santos foi alvo de piratas. São episódios pouco conhecidos, mas muito marcantes”, afirma.
O sucesso do projeto também dialoga com o interesse crescente por conteúdos de terror, true crime e sobrenatural, especialmente nas plataformas digitais. “Existe hoje um público muito grande consumindo esse tipo de narrativa, e isso naturalmente se conecta com a proposta do passeio”, analisa Dino.
Para ele, o potencial da iniciativa vai além do evento. “Santos pode se tornar um polo de turismo de terror. A cidade tem muitas histórias e cenários que favorecem esse tipo de experiência. Isso movimenta a economia, gera trabalho e atrai visitantes”.
A próxima edição está marcada para 17 de abril, com expectativa de novo crescimento. “Hoje, em número de público, já somos o maior do Brasil. E isso ajuda a valorizar ainda mais a nossa história”, conclui.


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