Esportes

Paulo Bartolo fez do caratê uma missão de vida

29/03/2026 Eduardo Silva
Fabiano Pereira

Ele comemora 40 anos da Academia Resistência, no bairro do Gonzaga

O garotinho Paulo Bartolo tinha apenas 5 anos de idade quando começou a treinar judô com o “sensei” Agostinho Feijó, no Clube Atlético Santista. Seguiu até os 12 anos com os mestres Feijó e Sardinha. Gostava do esporte, imaginava lutar como o Valter Tavares Júnior, o Valtão, e o Bechir Wakil, primeiro judoca de Santos a ser campeão brasileiro. Os dois eram um pouco mais velhos e eram seus ídolos na época. Como o menino Paulo também treinava tênis de mesa no Clube Internacional de Regatas, certo dia ouviu uns gritos que vinham debaixo da piscina do Inter. Eram as aulas de caratê do professor Manuel Góes Lameiro. “Quando vi aquela luta, eu falei: que coisa louca. Eu quero fazer isso”.

O professor Maneco perguntou se ele gostava mesmo e o colocou para treinar com o carateca Adalberto Coimbra, que era faixa marrom. “Eu comecei bem empolgado, tentando segurar, bater um soco, alguma coisa. Eu logo pensei: estou à vontade”. Aí o Maneco falou: Adalberto, mostra para ele agora o que é o caratê de verdade. “Meu amigo, ele não me machucou, mas mostrou a potencialidade. Sei que eu não achava nem a porta de saída depois deste treino. Aí mesmo que gostei e comecei a praticar lá no Internacional”.

Foi neste momento que a vida de Paulo Bartolo começou a mudar. Primeiro fez carreira de carateca, onde colecionou muitos títulos. “Eu era competitivo. Gostava muito de luta, mas não fazia o kata e o kihon, e o professor Osmar Teixeira Vieira me disse que, se eu quisesse chegar até a faixa preta só lutando, eu não iria conseguir. Me incentivou a fazer o kata, mudou um pouco o treinamento e comecei a ter outra visão da modalidade e a dar aula também”.

Foto: Fabiano Pereira

Na juventude, Paulo pensou em cursar medicina e engenharia civil. Como era bom de cálculos, preferiu ser engenheiro e aproveitou o curso para fazer uma parceria com a Faculdade Santa Cecília para abrir uma academia. “Eu conversei com o Milton Teixeira, que topou na hora, e, de repente, tinha 80 estudantes de engenharia treinando lá”. Ao mesmo tempo, abriu outro espaço no Clube Sírio-Libanês. Com 20 anos, Paulo Bartolo começou a inscrever a equipe para participar dos torneios universitários estaduais brasileiros. “Nós começamos a ter um sucesso. Eu ainda competia”.

Já formado como engenheiro, foi trabalhar na Codesavi, de São Vicente, e na Pirelli, de Santo André, tudo para realizar o sonho de viver do próprio esporte, o que muita gente duvidava na época. A virada na vida veio nos anos 1980, quando alugou três andares em um prédio comercial do Gonzaga para ampliar o espaço do caratê na cidade. Ao lado existia uma academia de musculação, que se chamava Resistência. “Eu gostei do nome e, com o dinheiro que ganhei trabalhando, montei o meu próprio espaço”. Paulo já pensava à frente e foi ousado, porque primeiro adquiriu o imóvel para trabalhar e só depois comprou a casa própria. “Primeiro eu queria garantir o sustento da família”.

Agora, aos 66 anos de idade e 40 anos de academia Resistência, ele está lançando seu oitavo livro e comemorando cada etapa percorrida até aqui. Casado com Elaine e pai de Paula, Patrícia e Viviane, ele só tem boas recordações. “São 55 anos de carreira, 40 de academia, e o novo livro “Shusei, a arte da lapidação no karatê” traz reflexões importantes que o esporte proporcionou ao Paulo. Hoje ele tem certeza da importância da revelação de atletas, mas tem um cuidado especial para a formação de cada cidadão.

Paulo Bartolo tem uma vida inteira planejada e dedicada ao caratê. Além da academia, segue como técnico e auxilia como gestor as equipes santistas nos Jogos Regionais e Abertos, mas sabe que a missão de vida é muito maior. É enxergar tudo que o caratê ofereceu até hoje. E seu livro Shusei resume toda essa longa e feliz jornada.

“É a permanência no tempo. É a maturidade. É aceitar a correção, é se expor, é diminuir o ego. Entendeu? Essa parte filosófica de apoio. Tem que entender isso para continuar para sempre. Eu estava refletindo sobre essa chegada dos 40 anos da academia, que eu tinha esse material que a gente usa no método do nosso treinamento. E eu refleti, eu falei: caramba. É por isso que a gente continua. O que me faz sair de casa para continuar dando aula? Eu poderia estar com meus netos passeando. Não, eu vou lá, dou aula e gosto bastante. Aí você percebe que é isso. É até hoje, é uma busca, é uma novidade, é a chama que te faz levantar. E, quando você acorda, fala: estou vivo, vou lá dar aula, vou treinar. E, principalmente, treinar lado a lado com os meus alunos com o mesmo vigor”.

Foto: Eduardo Silva