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O conto da aia

20/02/2026 Rafael Medeiros
O conto da aia | Jornal da Orla

A paz, o respeito aos fundamentos democráticos e a devoção aos direitos fundamentais são, infelizmente, momentos de exceção na esteira histórica da humanidade. A subjugação do próximo por meio do poderio bélico e o ambicioso exercício do poder sempre foram a tônica da odisseia humana neste planeta. É verdade que as nações, logo após as duas guerras mundiais, atentaram para os efeitos nefastos desses conflitos e convergiram esforços para construir uma ordem mundial mais pacífica e segura, o que resultou na criação da ONU. Entretanto, os ares dourados que inspiraram as boas relações internacionais já há muito se foram e a tensão política governa o mundo contemporâneo.

A experiência humana, portanto, é ancorada fortemente na hostilidade. E a literatura reflete essa realidade por meio dos romances distópicos, os quais normalmente retratam sociedades estatais opressivas que aniquilaram as liberdades sob a batuta de um líder e/ou regime militaresco. O conto da aia é um dos maiores clássicos dessa chave literária: narrado por uma mulher que viveu na República de Gilead, o livro expõe uma outrora sociedade livre que se transmudou num Estado teocrático e totalitário. As regras de convívio se baseavam no velho testamento bíblico, as mulheres perderam a cidadania, a imprensa foi cerceada e tudo era controlado por uma nova ordem.

Vale lembrar: a democracia é um milagre. Ela nunca é um ponto final, mas sempre um eterno e difícil caminho.  Extremamente frágil – até porque é de sua essência admitir que seus detratores a insultem por dentro-, sua qualidade deve ser constantemente preservada, sob pena de disrupção e desmoronamento. Há muita gente que, por interesses mil, odeia os valores democráticos. Já dizia Umberto Eco: “nossa tarefa é desmascará-lo [o autoritarismo] e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo”. As ficções distópicas também servem de alerta e merecem ser lidas, estudadas e adequadamente contextualizas.

Motivos para ler:

1- Margaret Atwood, canadense consagrada com diversos prêmios internacionais, é uma festejada romancista, contista, poetiza e ensaísta. O conto da aia é sempre posto ao lado de Admirável mundo novo (Huxley) e 1984 (Orwell) como uma das melhores distopias já escritas. O livro espraiou seu sucesso para uma espetacular séria de TV;

2- Um dos alicerces do Estado Democrático de Direito é o estabelecimento do muro de separação entre Estado e Religião. A liberdade religiosa só existe quando a fé não se imbrica com o poder civil, pelo prosaico motivo de que, se uma religião assume o poder, ela inibirá as demais – lembrando que existem mais de 4.000 religiões no mundo. A religião deve ser cultivada no círculo íntimo de cada qual e seus dogmas nunca devem embasar políticas públicas. Dito isso, o que justificaria existir uma fortíssima bancada evangélica, instalada para assumidamente legislar para si própria, plantada no Congresso Nacional? É de se pensar;

3 O livro se fia na severa depreciação das mulheres pelo regime teocrático. E é mesmo assim no mundo real. Basta olhar para países que adotam uma religião oficial: neles, as mulheres sempre sofrem limitações em seus direitos civis. E no Brasil? Parece-nos que muitos que se dizem “conservadores” (não são) apenas se valem desse apanágio para verter pura misoginia: a bancada “conservadora” do Congresso insiste em pautar projeto de lei que proíbe qualquer espécie de aborto (mesmo para as mulheres vítimas de estupro ou que corram risco de vida com a gestação); um simples passar de olhos nas redes sociais exporá diversos posicionamentos pregando um “padrão feminino” baseado na esposa temente a Deus e subalterna ao seu homem. Enfim, política (ou políticos) fortemente amarrada a qualquer crença religiosa nunca tem bom fim.