
Orlando Rodrigues tem fala mansa, jeitão tranquilo. A aparência não engana, porque o desassossego deste produtor cultural de 49 anos está nas conversas de bastidores, na criatividade e na persistência de um trabalho de mais de dez anos para estimular, divulgar e valorizar a cultura negra, principalmente a jovem e periférica, e a arte urbana na região. “Comecei trabalhando dentro da cultura hip hop. Em 2008, cocriei um projeto chamado ´Muito prazer, meu nome é Hip hop`. A gente começou um diálogo com o poder público, mostrando essa cultura e suas ferramentas de transformação social”, afirma.
Em reconhecimento a esse trabalho na defesa da igualdade racial, combate ao racismo e a valorização da comunidade negra, no final de novembro de 2025, mês da Consciência Negra, Orlando foi homenageado com o Troféu Zumbi dos Palmares, concedido pelo Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e de Promoção da Igualdade Racial de Santos. “Eu sou um cara que estou dentro dos espaços democráticos de direito relacionados à cultura negra, à juventude, e ser homenageado foi emocionante e simbólico, porque é um troféu que traz o nome de um líder que na época dele tinha suas ferramentas de luta. Hoje, no século 21, a gente tem outras ferramentas de resistência e continua lutando”, diz.
Orlando acompanhou o movimento hip hop desde o início, uma época em que os slam e batalhas de rimas ainda eram novidades em Santos e na Baixada. “Trabalhei com o jovem que começou o movimento de batalhas de rimas na região, o Jorge NeGreen. A gente conversou e criou a Batalha do Bonde, que acontecia em frente à Cadeia Velha (Praça dos Andradas, Centro). Dali, a juventude passou a criar, nos seus bairros, sessões de rima. Hoje, você tem a Batalha da Santa, no BNH, a Batalha do Céu, que acontece na Lagoa, no Morro da Nova Cintra, a Batalha da Conselheiro, O Slam dos Andradas, que era organizado pelo Slik e hoje quem toca é a Jordana (Negra Jô) e várias outras manifestações”.
Mas nada aconteceu sem luta por conquista de espaço e combate ao preconceito, sobretudo pelo fato de serem eventos que reúnem principalmente jovens negros, muitos deles das periferias. “Claro que havia muito preconceito.
Por exemplo, o projeto ‘Muito prazer, meu nome é hip hop’ ajudou muito a consolidação da Batalha da Conselheiro (na praia, em frente à avenida Conselheiro Nébias). No início, tinha conflitos por causa do desconhecimento do que eram as batalhas, divergência de opinião, olhares diferentes para a estética do movimento. Eu era conselheiro municipal de Cultura e conversei bastante com a Guarda Municipal, com o poder público. Fazia essas mediações e acompanhei todos esses movimentos, até que os jovens passassem a fazer a autogestão da sua arte”.
O projeto ´Muito prazer` foi interrompido na época da pandemia, já em uma fase em que o movimento hip hop havia conquistado maior autonomia. “Nossa função de mostrar para o poder público o que era o hip hop, já tinha sido passada”, afirma Orlando Rodrigues.
EDITAIS CULTURAS
Orlando Rodrigues também considera o surgimento de editais culturais como uma grande conquista. “É muito importante para descentralizar, para dar independência aos coletivos – sejam eles de rima, dança hip hop, grafite, slam etc. –, porque proporciona recursos que podem garantir visibilidade a esses artistas; são uma vitrine para a arte urbana, a cultura negra, periférica”.
Os editais de incentivo à cultura são lançados pelos governos federal, estadual e municipal selecionam projetos em diferentes áreas, proporcionando aos selecionados recursos para realização das suas propostas, com base em critérios de divulgação pública e prestação de contas, entre outras exigências. Em Santos, por exemplo, há o Fundo de Apoio à Cultura (Facult), além de editais de apoio à cultura negra, com base em leis federais com a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo.
Orlando trabalha também como uma espécie de gestor de projetos neste segmento. “Eu atuo muito na elaboração de projetos e ajudo na produção executiva. Muitos artistas preferem ficar apenas na parte de criação e chamam gestores para a etapa ver documentação, mexer com a burocracia. Quem me procura mais é o pessoal da cultura hip hop, DJs, grafiteiros”. Ele cita como exemplo o projeto de grafite ´Marias do Monte Serrat`, no muro no pé do morro. “Organizei e assinei a produção executiva, em conjunto com os artistas”.
Atualmente, atua em conjunto com uma companhia de teatro de mulheres negras, com a qual está produzindo peças teatrais com temática afrocentrada. Também trabalha com coletivos de samba-rock, com os quais já conquistou a lei municipal do Dia do Samba-Rock, em homenagem ao mestre Galdino, pioneiro desse estilo musical em Santos. “Fiz toda a parte de interlocução, gestão”.
Mas ele recusa o rótulo de gestor burocrata. “O pessoal fala que o Orlando é o cara da caneta azul, da papelada. Sim, mas para isso, é preciso ter o diálogo, conhecer e ter experiência, elaborar e apresentar o produto cultural. Você tem que saber amarrar projeto, pré-produção, a execução e os desdobramentos dessa produção, as contrapartidas exigidas pelos editais. Por exemplo, depois da produção, há a dificuldade de dar continuidade para apresentar a proposta e a gente precisa trabalhar nisso, buscar novos incentivos”, afirma.
Orlando Rodrigues destaca o Afrotu, sob liderança da Luciana Cruz, como exemplo de um projeto coletivo de mulheres que estão quebrando barreiras. “Têm um espaço no Centro, participam de editais, conseguem recursos. A Adriana Barbosa, da Feira Preta (São Paulo), foi quem abriu as portas para tudo isso. Pensou em afro-hub, entrou na área de tecnologia, já está conversando com grandes empresas”.
ECONOMIA CRIATIVA
Formado em Propaganda e Marketing, Orlando Rodrigues é incansável, também, no seu desejo de aprender. Conquistou uma bolsa de estudos para afrodescendentes em um programa do Itaú Cultural e está fazendo mestrado em Economia, Políticas Culturais e Indústrias Criativas, na Universidade Federal do Rio do Sul (UFRS).
“É um modelo híbrido, a cada três meses, eu vou para lá e fico uma semana, cursando as matérias presenciais. Aqui, faço as matérias online. Acho interessante o poder público entender esse nicho da economia criativa. Dar autonomia para a cultura, porque ela é o eixo para o desenvolvimento social, Já que Santos tem um selo da Unesco neste segmento, quero estudar e entender mais essa economia dentro da diversidade”, conclui.


Gratidão ao mestre Orlando, esse faz a coisa acontecer, reúne os elementos do Hip Hop com sabedoria!