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A culpa é sua

17/11/2025 Hudson Carvalho
A culpa é sua | Jornal da Orla

Como dizem por aí, a culpa é minha, ponho-a em quem eu quiser. Pode ser, mas… antes disso, sugiro que reflita se, por acaso, ela não seria mesmo… sua.

Minha?! Sim. Vamos pensar juntos: sou só eu quem tem essa impressão, ou há uma verdadeira epidemia de gente “desculpada” por aí?
Ao menor sinal de problema, olham ao redor à procura de um culpado externo — menos no espelho, claro.

É como se estivéssemos vivendo a terceirização da responsabilidade.

Há pessoas que se dizem sem culpa por absolutamente nada do que acontece ao seu redor… e impressionante: nem do que lhes acontece.

Os governos têm culpa? Têm. A economia? Também. O colega de trabalho, o chefe, o trânsito, o tempo, o algoritmo das redes sociais? Sem dúvida!

Será mesmo que tudo o que nos acontece é culpa de forças externas?

Pode ser incômodo admitir, mas a verdade é que, temos, sim, uma parcela — às vezes bem grande — de responsabilidade pelas situações que vivemos. Há momentos em que a culpa é inteiramente nossa. Difícil de engolir? Sim, mas necessário.

Culpar os outros é confortável. Serve como uma almofada emocional. Diminui o peso interno e nos preserva da cobrança que nossa consciência naturalmente faz. Mas conforto nem sempre rima com evolução. Culpar a terceiros pode aliviar momentaneamente, mas não resolve absolutamente nada.

Dizem que o nosso cérebro, esse mestre da sobrevivência, também é nosso pior inimigo. Quer sempre nos proteger, nos manter inteiros, evitar que sejamos “machucados” emocionalmente.

Nessa ânsia de nos blindar, nos prende em um ciclo perigoso, um looping de autodefesa que nos impede de crescer — e nos acomoda perigosamente na tal Zona de Conforto.

Negar a culpa, fingir que errar é coisa dos outros, nos priva de um dos maiores presentes da maturidade: o aprendizado. Aprender com os próprios erros exige coragem. É dolorido, mas profundamente transformador.

É enfrentando o desconforto que conseguimos evitar que ele se repita. É assumindo nossas falhas que nos tornamos, de fato, melhores — como profissionais, líderes, pessoas.

E não para por aí. Negar a própria culpa tem efeitos colaterais pesados, especialmente no ambiente de trabalho. Sabe aquele colega que nunca erra? Que tem sempre uma justificativa, uma desculpa, para algo que não deu certo?
Pois é. Ninguém gosta de trabalhar com quem se comporta como se estivesse numa olimpíada de infalibilidade. É desagregador. Corrói a confiança da equipe. Cria um ambiente tóxico onde o erro é punido, e não tratado como oportunidade de melhoria. E quando o líder não age, o problema se alastra — silencioso, mas letal.

Por isso, proponho aqui um exercício: o autoexame contínuo. Uma análise fria, honesta, objetiva do que aconteceu. Onde, de fato, eu errei? O que estava sob meu controle? O que eu poderia — e deveria — ter feito diferente?

Reconhecer os próprios erros é, sim, um gesto de grandeza. Mas, cuidado: não se trata de vestir a capa da culpa eterna e carregar o peso do mundo nas costas. Assumir mais culpa do que nos cabe também é prejudicial.

Já vi, ao longo da minha carreira, profissionais brilhantes afundarem-se em autossabotagem, sempre prontos a se culparem por tudo, mesmo quando a responsabilidade era compartilhada. Isso também paralisa, também adoece, também impede o avanço.

Sejamos justos — conosco e com os outros. Todos erramos. Todos. Reconhecer isso, com equilíbrio, é o primeiro passo para corrigir o rumo, evoluir e seguir em frente, tomando as rédeas da própria vida.