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Velas, a Luz na Narrativa Judaica

02/10/2025 Bárbara Camargo
Velas, a Luz na Narrativa Judaica | Jornal da Orla

A luz é a gênese – a criação do mundo. A declaração primária da criação é “Haja luz”, sua separação das trevas.

O Midrash (termo genericamente aplicado a estudos feitos a partir da Escrituras, independentemente de sua natureza) pergunta – do que a luz foi criada? A resposta é sussurrada: “Deus se cobriu com um xale branco, e a luz de seu esplendor brilhou de um extremo ao outro do mundo”.

Em outras palavras, fundamentalmente, a luz não pertence a este mundo. Pelo contrário, é uma emanação de uma essência diferente, do outro lado da realidade. A luz serve como símbolo do bem e do belo, de tudo o que é positivo.

Na Bíblia, apenas lamparinas e tochas eram usadas para iluminação. A tocha (lappid) não é mencionada apenas na Bíblia, mas também em fontes assírias. Foi usada para espalhar fogo em tempo de batalha, e como uma luz brilhante.

Porém o judaísmo é difícil de imaginar sem velas. Nós as usamos frequentemente para uma variedade de propósitos. Por exemplo, na data de falecimento de nossos entes queridos, uma vela memorial brilha em nossa casa, por vinte e quatro horas, para nos lembrar de sua presença constante em nossa vida.

No início do Yom Kippur (O Dia do Perdão), é costume que os judeus acendam uma vela memorial para recordar a memória dos entes falecidos.

E durante a semana de shivá (luto), uma única vela de longa duração ilumina o vazio em nossas vidas, criado pela perda de um parente próximo.

Todos esses três rituais são baseados no pensamento reconfortante expresso em Provérbios 20:27 de que “o fôlego de vida do homem é a lâmpada do Senhor”. Luz indica vida.

Podemos refletir sobre a poderosa metáfora espiritual da luz na tradição judaica. A luz é um dos símbolos duradouros de Deus em nossos textos sagrados.

A diferença entre luz e escuridão assume um significado tão geral e metafísico, e a vantagem da luz sobre a escuridão é tão óbvia e auto evidente que serve como uma metáfora afiada: “… a sabedoria supera a loucura tanto quanto a luz supera a escuridão”.
A luz como um símbolo positivo é tão prevalente no hebraico bíblico que a redenção, a verdade, a justiça, a paz e até a própria vida “brilham”, e sua revelação é expressa em termos da revelação da luz.

Talvez, esta importância exista porque a própria luz não pode ser vista. Tornamo-nos conscientes de sua presença quando ela nos permite ver outras coisas. Da mesma forma, não podemos ver Deus, mas nos tornamos conscientes da presença de Deus quando vemos a beleza do mundo, quando experimentamos o amor e a bondade de nossos semelhantes”

Assim, a luz das velas simboliza e aponta para uma essência que contém a santidade, em todas as suas diferentes aparências na realidade: na santidade do lugar (no Santo dos Santos no Templo), na santidade do tempo (no Shabat e nas festas) e na santidade e importância dos eventos (em ocasiões especiais).

Ressaltamos a importância de algum evento extremamente importante para nossa história de sobrevivência também, acendendo velas.

Como exemplo, embora os feriados principais no judaísmo começam com o acendimento de velas, para marcar a transição do tempo profano para o sagrado, o acendimento de velas durante os oito dias de Chanucá é feito para comemorar o próprio evento que, de acordo com o Talmud, deu origem ao feriado. As velas desta vez não marcam nenhuma transição, mas sim o milagre de uma pequena botija de azeite que durou incrivelmente oito dias.

Na tradição judaica, a chama da vela também representa simbolicamente a alma humana e serve como um lembrete da fragilidade e beleza da vida.

Como uma alma humana, as chamas devem respirar, mudar, crescer, lutar contra a escuridão e, finalmente, desaparecer. Assim, o piscar da luz das velas ajuda a nos lembrar da preciosa fragilidade de nossa vida e da vida de todos os seres, uma vida que deve ser abraçada e valorizada o tempo todo.

Na narrativa bíblica, a Torá proíbe os judeus de acender fogueiras no Shabat – mas os Sábios do Talmud determinaram que podemos usar fogueiras acesas antes do Shabat e nos ordenaram acender uma luz para ver antes do pôr do sol, a fim de tornar o jantar do Shabat mais alegre e festivo. Na época, eles se referiam às lâmpadas a óleo, e o Talmud ainda entra em discussões detalhadas sobre os tipos de lâmpadas e óleos ideais para o uso neste Shabat. E, de fato, a bênção que recitamos ao acender as velas do Shabat hoje se refere às luzes do Shabat (“ner shel Shabat”), não às velas especificamente.

Eventualmente, o ato de acender as luzes do Shabat tornou-se associado, na mente das pessoas, como o início oficial do Dia do Descanso, pois era a último trabalho proibido, que alguém faria logo antes do Shabat.

No decorrer do tempo, passamos de lamparinas a óleo para velas porque, em muitos lugares onde os judeus viveram ao longo da história, especialmente na Europa, as velas de cera eram mais facilmente acessíveis do que o óleo e, portanto, tornaram-se amplamente utilizadas. Assim, por muitas gerações, as velas tornaram-se fortemente associadas aos rituais judaicos de acendimento.

Hoje, majoritariamente, usamos velas para marcar o início e o fim do Shabat e dos feriados principais, em cada uma das 8 noites de Chanucá, e para lembrar as almas de nossos entes queridos falecidos.

As duas velas acesas no Shabat também servem como um lembrete dos requisitos bíblicos para shamor v’zachor – “guardar” e “lembrar” o Shabat. Elas também representam kavod (honra) para o Shabat e Oneg Shabat (prazer do Shabat).

As velas de Shabat são, prioritariamente, acesas pelas mulheres da casa. Como as velas são acesas antes da bênção ser dita, as mulheres tradicionalmente cobrem os olhos enquanto dizem a bênção, para que a luz só se torne visível após a conclusão da bênção.

Entretanto, acendemos uma vela como parte do ritual Havdalá (uma cerimônia religiosa judaica que marca o fim simbólico do Shabat), que inaugura a nova semana. No final do Shabat, a fim de marcar a transição do dia sagrado, para a volta à semana comum, usamos um ato de acender fogo, que é proibido no próprio Shabat.

As velas Havdalá são únicas porque apresentam dois ou mais pavios entrelaçados. Isso ocorre porque a bênção dita sobre o fogo durante o Havdalá diz: “Aquele que criou as iluminações do fogo”, implicando que há mais de um fogo – e, portanto, usamos mais de um pavio para criar vários fogos que se combinam em uma chama.

Saudamos os primeiros momentos da nova semana com o primeiro fogo que podemos acender naquela semana.

Em resumo, acender uma vela diante de Deus — é preparar um lugar onde a gloriosa presença de Deus possa habitar. Por meio disso você anima sua alma, ou seja, “a vela”.

Mendy Tal
Cientista Político e Ativista Comunitário