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‘Amor à Flor da Pele’, 25 anos depois

06/09/2025 André Azenha
‘Amor à Flor da Pele’, 25 anos depois | Jornal da Orla

Abrir uma coluna sobre clássicos do cinema é um desafio e uma celebração. Para inaugurar este espaço, a escolha não poderia ser outra: Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love), dirigido por Wong Kar-Wai, lançado em 2000 e que completa 25 anos em 2025. Um clássico moderno, obra-prima do cinema mundial, ainda hoje fascina plateias pela sofisticação estética, pela contenção dramática e pela intensidade emocional.

A trajetória de Wong Kar-Wai até este filme já revelava um cineasta singular. Nascido em Xangai, criado em Hong Kong, iniciou a carreira nos anos 1980 e rapidamente se tornou um dos nomes centrais da chamada “Segunda Nova Onda” do cinema honkonguês. Antes de Amor à Flor da Pele, havia realizado títulos que chamaram a atenção internacional: Dias Selvagens (1990), Amores Expressos (1994) e Anjos Caídos (1995) misturavam melancolia urbana, histórias fragmentadas e um estilo visual inconfundível.

No centro de Amor à Flor da Pele estão dois intérpretes em estado de graça. Tony Leung Chiu-Wai, ator habitual do diretor, dá vida a um jornalista recém-casado. Maggie Cheung, musa do cinema de Hong Kong, interpreta uma secretária também em um matrimônio. Ambos descobrem que seus respectivos parceiros mantêm um caso extraconjugal entre si. A partir daí, os protagonistas estabelecem uma relação marcada por desejo, proximidade e renúncia.

Em vez do excesso, o cineasta aposta no silêncio, no não dito, no gesto contido. O resultado é devastador, de apertar o coração. Uma das cenas mais emblemáticas mostra os protagonistas caminhando juntos por becos apertados, nos anos 1960, ao som de Yumeji’s Theme, de Shigeru Umebayashi. A música, repetida ao longo da narrativa, funciona como lamento e pulsação, lembrando que o tempo não volta.
A fotografia de Christopher Doyle e Mark Lee Ping-bin confere ao filme um caráter quase pictórico. Planos fechados em corredores estreitos, uso expressivo da cor vermelha, jogos de sombra e reflexos em espelhos criam a sensação de que cada quadro é uma pintura.

Essa estética dialoga diretamente com o tema central: a impossibilidade de consumar um amor, preso em convenções sociais e temporais. A cada enquadramento, o espectador sente o peso do que não se concretiza.

Além da trilha de Umebayashi, composições latinas interpretadas por Nat King Cole — Quizás, Quizás, Quizás e Aquellos Ojos Verdes — reforçam a atmosfera de nostalgia e desejo contido. A escolha musical amplia o alcance universal do filme: trata-se de uma história de amor não correspondido que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, ainda que profundamente enraizada na cultura e no espaço de Hong Kong dos anos 1960.

Exibido no Festival de Cannes de 2000, o filme rendeu a Tony Leung o prêmio de Melhor Ator e consolidou Wong Kar-Wai como um dos grandes autores do cinema contemporâneo. Críticos de todo o mundo reconheceram a obra como uma das mais importantes já produzidas no Oriente. Um quarto de século depois, ainda permanece intocado. Talvez porque fale, com imagens e sons, daquilo que todos reconhecem: a dor e a beleza de um amor que nunca se cumpre.

Se você se emocionar com Amor à Flor da Pele, vale buscar outros filmes que dialogam com a mesma sensibilidade. A Moça com a Valise (1961), de Valerio Zurlini, estrelado por Claudia Cardinale e Jacques Perrin, também explora uma relação marcada pela delicadeza e pelas impossibilidades. Já Verão de 42 (1971), dirigido por Robert Mulligan, com Jennifer O’Neill e Gary Grimes, captura a intensidade e a melancolia de um amor juvenil atravessado pelo tempo e pela memória.