Longevidade

Autonomia também faz parte do envelhecer

06/09/2025 Ivani Cardoso
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Quando se escreve, tudo pode virar inspiração para um conto, um romance, uma coluna ou matéria de jornal. Quando estava assistindo ao filme A morada da sexta felicidade, de 1958, com meu grupo de cinema do professor José Roberto Terron, uma frase da personagem Jeannie Lawson foi marcante: “Não me enterrem antes do tempo!” Ela disse quando a heroína, interpretada por Ingrid Bergman, quer ajudá-la a carregar um fardo muito pesado. E com altivez, segue com o trabalho.

Tantos anos depois, a frase continua atual e tem significado para muitos homens e mulheres mais velhos indignados quando filhos ou netos, mesmo com a melhor das intenções, querem interferir na rotina e na independência de quem ainda tem condições para fazer escolhas.

Viver mais também significa ter mais autonomia, até para não ser obrigado a fazer o que não quer. Como tudo tem dois lados, quando a teimosia se revela como um risco, é preciso paciência, resiliência e decisões compartilhadas de todos.

Se é uma pessoa que está se cuidando, tem boa mobilidade, pratica exercícios, toma remédios corretamente, cuida bem da higiene pessoal e do lar e administra bem os riscos próprios da idade dentro ou fora de casa, é sinal de que pode continuar assim por enquanto, sem interferências.

Quando os familiares percebem que algo saiu do normal e que não está funcionando, é hora de acompanhar mais de perto e trocar rotinas, explicando e buscando parceria nas decisões.

Os velhos não gostam de se sentirem fiscalizados ou infantilizados. É importante, enquanto é possível, manter seu espaço e seu dia a dia com amigos, hobbies, passeios e programas preferidos.

Se a pessoa tem um médico que consulta há algum tempo, ele pode dar conselhos em momentos de dúvidas sobre mudanças necessárias. Às vezes, pequenos acertos fazem grande diferença, sem recorrer a imposições.

Em muitas conversas com amigos da minha idade que moram sozinhos, vejo que é comum a preocupação de passar mal sem conseguir avisar alguém. Uma boa solução é criar códigos com os mais próximos como mensagens ou telefonemas diários. Para quem tem recursos e pode se valer da tecnologia, o uso de câmeras estratégicas ou pulseiras para socorro urgente aparece como ótima solução.

Os relacionamentos sociais e familiares continuam sendo prioridade para um envelhecer com qualidade de vida. Nessa equação, também deve entrar o respeito à individualidade. Se o velho nunca foi de ter muitos amigos ou de sair de casa, se prefere um filme ou um livro, por que os parentes querem obrigá-lo a sair da zona de conforto que tem dado resultado? Se, ao contrário, não gosta de solidão, vale discutir possibilidades que se encaixem à situação, como procurar um acompanhante, um cuidador/cuidadora pelo menos para o período noturno, trocar a casa por um apartamento menor, encontrar um residencial acolhedor, e por aí vai.

As velhices são muito diferentes e mudam com a passagem dos anos. Por isso, o melhor lugar para construir a liberdade é dentro de cada um.

Dica de filme

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Bem que poderia ser um dramalhão pelo tema, mas o filme dirigido e dirigido e roteirizado por Pat Boonnitipat funciona, diverte e emociona. O jovem When M (Putthipong Assaratanakul) passa a cuidar de sua avó doente Amah (Usha Seamkhum) planejando se transformar no neto favorito e ficar com a casa onde ela mora. O plano é conquistar a confiança de sua avó, mas ele acaba envolvido pela singeleza da rotina da mulher forte, corajosa e lúcida, sabe exatamente os que quer, mesmo que contrarie toda a família.