
Há escritores que parecem amigos de infância. Estão lá na estante ou na página do jornal, falando de futebol, de política, de amor e de nada ao mesmo tempo, como se conversassem na mesa de um bar. Luis Fernando Veríssimo foi esse tipo raro de autor: o cronista que falava baixo, mas dizia fundo. Um sujeito que ensinou gerações a rir de si mesmas e, sem perceber, a pensar.
Veríssimo morreu no último sábado aos 88 anos, em Porto Alegre. Estava internado desde o dia 11 no Hospital Moinhos de Vento, em estado grave, vítima de complicações causadas por uma pneumonia.
Velado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, pela manhã, reuniu público que foi se despedir de perto. À tarde, o corpo foi sepultado no Cemitério São Miguel e Almas, ao lado da mãe e da avó.
Veríssimo enfrentava problemas de saúde havia anos: Parkinson, complicações cardíacas — usava marcapasso desde 2016 —, um AVC em 2021 e uma cirurgia na mandíbula em 2020.
Presidentes e autoridades lamentaram a perda. O presidente Lula decretou luto nacional de três dias e definiu Veríssimo como dono de múltiplos talentos e criador de personagens inesquecíveis. O governador do Rio Grande do Sul decretou luto estadual e chamou o escritor de gênio da escrita.
Jazz
Nascido em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936, era filho de Érico Veríssimo, um dos maiores romancistas brasileiros do século XX. Cresceu cercado de livros, mas demorou a assumir para si a vocação de escritor. Ainda jovem, acompanhou a família nos Estados Unidos, quando o pai trabalhava em universidades e instituições culturais. Ali descobriu o jazz, paixão que o acompanharia por toda a vida, e aprendeu a tocar saxofone.
De volta ao Brasil, começou a trabalhar em agências de publicidade e, em 1966, foi para a redação do jornal Zero Hora, primeiro como revisor. Pouco depois, as colunas de humor e comportamento o projetaram. A ironia mansa, o comentário sobre o cotidiano, o jeito de rir dos próprios absurdos rapidamente conquistaram leitores.
Livros
Seu primeiro livro foi O Popular: crônicas, ou coisa parecida, lançado em 1973 pela José Olympio. Era uma seleção de textos já publicados na imprensa, mas revelava um estilo pronto, direto, engraçado sem forçar, reflexivo sem pedantismo.
Dois anos depois, em 1975, publicou A Grande Mulher Nua, também uma coletânea de crônicas. Em 1977 veio Amor Brasileiro, reafirmando que havia espaço para uma prosa curta e bem-humorada que tratava das relações humanas como quem comenta uma partida de futebol.
O quinto livro, Ed Mort e Outras Histórias (1979, L&PM), apresentou ao público o detetive desastrado que se tornaria seu personagem mais popular. Ed Mort, uma paródia dos heróis do cinema noir, ganhou vida própria, chegando às histórias em quadrinhos e ao cinema.
Na mesma década, Veríssimo criou As Cobras, tirinha publicada em jornais que virou clássico do humor gráfico brasileiro. E, ainda nos anos 80, surgiu O Analista de Bagé, personagem que unia psicanálise e machismo.
Eu e veríssimo
Para mim, Veríssimo foi o portal para a leitura adulta. Os primeiros livros de crônicas — O Analista de Bagé depois A Grande Mulher Nua e Amor Brasileiro — foram a primeira coisa que li despretensiosamente, mas com gosto sério. Esses papéis, colunas, textos soltos que viraram livro me ensinaram que havia algo maior ali: a crônica como encontro entre o passageiro e o definitivo, o cotidiano e a ironia. Foi a primeira leitura que me fez leitor de verdade.
Esse formato, leve e experiente, se alinhava à coleção Para Gostar de Ler, que marcou minha infância e início da adolescência. Aqueles livretos escolares, com crônicas clássicas — muitas de Rubem Braga, Rachel de Queiroz e outros — ganhavam mais força quando li os livros de Veríssimo. Eram escritos que pareciam feitos para gente como eu, mesmo que eu não tivesse maturidade para entender algumas situações.
Cronista
Veríssimo escrevia de Porto Alegre para o Brasil inteiro. Estava nas bancas, nos cadernos de cultura, nos suplementos de domingo. Era leitura certa de milhões de brasileiros, sempre com a mesma leveza: falar de futebol como metáfora da política, falar de amor como se fosse piada de bar, falar da morte como quem brinca de esconder.
Ele dizia muito com poucas palavras. Por isso mesmo foi traduzido para mais de dez idiomas e lido em vários países. Na televisão, suas crônicas ganharam versões em séries e especiais, como Comédias da Vida Privada, exibida na Globo nos anos 1990, que transformou em dramaturgia aquele olhar rápido e perspicaz sobre casais, famílias e vizinhos.
Veríssimo fazia parte de um grupo que se formou depois do apogeu da televisão e que ocupava um lugar raro: cronistas que pensavam o Brasil sem didatismo, usando humor como ferramenta crítica. Ivan Lessa, Millôr Fernandes, Jô Soares e, mais tarde, Daniel Piza estavam nessa turma. Todos tinham em comum a inteligência rápida, o sarcasmo que não se dissolvia no riso fácil.
Millôr usava o aforismo como lâmina, Lessa apostava na ironia britânica, Jô misturava erudição e palhaçada. Veríssimo, por sua vez, preferia o tom de conversa: parecia que escrevia de dentro da sala de estar. Sua crônica se deixava ler em dois minutos, mas ficava ecoando como se fosse memória pessoal.
Legado
Luis Fernando Veríssimo partiu. Ficou o vazio, o silêncio parcial do humor que percebia o Brasil com desvelo e sarcasmo coletivo. Ficaram os livros que transformaram leitores, que deram forma ao olhar sobre o dia a dia.
Com mais de 70 títulos publicados, entre crônicas, contos, romances e livros infantis, seu nome entrou para a história não como o filho de Érico, mas como autor que conquistou espaço próprio. Foi um escritor que soube rir do país sem nunca desprezar quem o lia.
Essencialmente simples, afiado como um bom verso disfarçado de piada. Foi tudo o que quis ser e foi para quem o leu.


Ótimo artigo. Parabéns.