Longevidade

Paternidade tardia é experiência com desafios, mas maravilhosa

11/08/2025 Ivani Cardoso
Arquivo pessoal

Aos 47 anos, após uma separação e sem realizar o sonho dos filhos tão desejados e tentados, a psicóloga mineira Renise Lacava Veiga Gomes já quase havia desistido de ser mãe. Quase. No fundo, ainda era o que mais queria.
Foi então que conheceu Roldão Gomes Filho, quatro anos mais velho, também separado e pai de três adolescentes. A amiga que os apresentou em Santos não teve dúvidas: “Esse é o seu príncipe.”

O marido dessa amiga, sabendo do encontro, convidou Roldão para um fondue na casa de Renise e comentou sobre seus “olhos verdes maravilhosos”. No meio de tantas mulheres na reunião, Roldão procurava, intrigado, os tais olhos, e não encontrava. Não sabia que ela usava lentes coloridas e, justo naquele dia, estava sem.

Na segunda reunião entre os amigos, enfim, começaram a conversar e não pararam mais. Durante o namoro, Roldão foi direto: não queria mais filhos, só queria ser avô. A revelação foi uma decepção para Renise, mas ela refletiu muito e concluiu que o amor era maior do que o desejo de ser mãe. Dois anos depois, se casaram.

Certa vez, caminhando pela praia, encontraram um médico da Clinimater, onde Renise havia feito tratamento anteriormente. Ao vê-la emocionada, ele perguntou se ainda queria ser mãe. “É tudo o que eu mais quero na vida”, respondeu ela. O canceriano, cedeu. Ela não perdeu tempo: ainda ali, ligou para o médico Condesmar Marcondes e agendou uma consulta.

Na terceira tentativa, engravidou. Os gêmeos Isac e Daniel nasceram em 11 de março de 2008, após uma gestação tranquila, mas de repouso absoluto, e um parto complicado devido à pré-eclâmpsia. Renise, então com 49 anos, fez questão de ter o marido ao seu lado na sala de parto. Roldão, aos 53, quase desmaiou — mas ficou até o fim. “Eu tinha medo de ser pai velho, medo de faltar”, confessa. “Quando me separei, fiquei com meus três filhos: Rodrigo, Aline e Amanda, hoje com 47, 44 e 41 anos. Sempre estive presente, acompanhando tudo.”

Apesar dos receios, Roldão logo retomou a prática: deu banho, trocou fraldas, ajudou em tudo. “É uma responsabilidade enorme começar do zero, mas você rejuvenesce. Tem que se cuidar, correr, jogar bola na praia, levar na escola. Até hoje, faço questão de preparar o café da manhã dos dois — agora com 17 anos.”

Com a adolescência, veio o distanciamento natural: cada filho em seu canto. Ainda assim, Renise se senta no meio dos dois, tenta entender os jogos, puxa conversa — e cobra do marido que se envolva também. “Ela quer que eu jogue com eles, mas eu digo que sou avô. Ela que faz as exigências”, brinca Roldão.

Renise insiste que está criando os filhos para o mundo. Roldão tem outra versão. Um exemplo foi o intercâmbio em Ottawa, com mais de 400 jovens de diversos países. De repente, Renise decidiu que queria conhecer o Canadá também. Conseguiu autorização para passar uma hora com os filhos no local. “Chegamos na hora do jantar e éramos os únicos pais. Isac saiu envergonhado. Daniel e os amigos vieram conversar, e eu vi como ela ficou sentida”, lembra ele.

Enquanto Roldão prefere deixar a vida acontecer, Renise já organizou documentos, planilhas e o orçamento familiar. Quer garantir que os filhos fiquem bem, aconteça o que acontecer. “Claro que quero vê-los com 50 anos”, diz, sorrindo. “Mas, como não sei quando vou, quero deixar tudo encaminhado”.

Há idade certa para se tornar pai no Brasil?

Há uma idade certa para ser pai em um país como o nosso, que envelhece a cada dia? A psicóloga Valmari Cristina Aranha Toscano, membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia diz que quando uma pessoa se torna pai pela primeira vez, independentemente da idade, é importante saber se a paternidade foi planejada ou não, uma vez que ter um filho implica em diferentes responsabilidades legais e afetivas.

Pais mais velhos procuram mudar hábitos e estilo de vida, fazem um seguro de vida, cuidam melhor da saúde e evitam alguns comportamentos de risco. “Com os homens se acentuam as responsabilidades, seja com a educação, em preparar um ser humano melhor para o mundo, seja em relação à segurança financeira, pois dependendo da idade desse pai pode ser que o filho ainda seja dependente quando vier a falecer”, comenta.

Segundo Valmari, para esses pais, o importante não é aumentar a expectativa de vida, mas sim prolongar o número de anos que ele deseja ficar com filho: “É preciso cuidar da saúde física, manter alimentação saudável, qualidade do sono e da física e mental, não permitindo que o preconceito por ser um pai mais velho atrapalhe a relação com o filho”. Entre os benefícios estão a motivação para buscar novos propósitos, se atualizar e enxergar o mundo com os olhos da modernidade. Para ela, a melhor forma de lidar com possíveis conflitos de geração é o diálogo: “Trabalho com envelhecimento há muitos anos e uma pessoa idosa há 30 anos era muito diferente da pessoa idosa hoje. Por isso, precisamos desmistificar a ideia de que toda pessoa idosa pensará diferente do jovem.”

Questionamentos

Ela sugere aos pais mais velhos, responder duas perguntas: Que pessoas eu quero deixar para o mundo? Que contribuição eu posso trazer para a vida de alguém? Os melhores caminhos são presença e diálogo. “Impor limites e dizer não poderá ser um ato de amor se acompanhado de carinho e respeito”.

Quando a separação de um primeiro casamento ocorre em uma fase mais tardia, vem a culpa por quebrar uma estrutura que vinha acontecendo com a família, quebrar essa expectativa traz mais culpa para os pais. “A sociedade mudou, os filhos têm suas próprias relações. Filho de qualquer idade precisa ser comunicado com a dissociação do papel de pai e marido. Isso pode amenizar os conflitos”, aconselha.

Valmari destaca que cada filho percebe o pai de uma forma diferente e os pais são diferentes para cada filho. “Vemos muitas famílias reconstruídas, filhos de outras geracões convivendo na mesma casa. E importante que dentro da casa as regras sejam compartilhadas. As regras devem ser cumpridas para todos, mesmo que venham de vínculos diferentes para se sentirem pertencentes àquela família, e evitar comparações sempre”.

Chegar a um acordo para que o posicionamento diante do filho seja sustentado pelos dois é essencial: “Quando duas pessoas resolvem ter um filho esse objetivo deve ser planejado. Pais de idades diferentes, mais velhos trazem sua experiência e os filhos mais jovens podem beber de duas fontes de conhecimento e experiência de vida, desde que não seja usada como disputa ou quebra de braço. E isso tem mais a ver com o casal do que com a maternidade ou paternidade”.