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O mito de Sísifo

09/08/2025 Rafael Medeiros
O mito de Sísifo | Jornal da Orla

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” Estas foram as palavras com as quais Camus abriu um dos livros mais influentes de todos os tempos.  O mito de Sísifo, concebido como um ensaio filosófico, rompeu as barreiras do tecnicismo acadêmico e alcançou a consagração perante o grande público.

O eixo central do título se ancora na noção do absurdo da existência. A ideia é construída ao longo de todo o ensaio e finalizada à perfeição com a metáfora da tragédia de Sísifo. Em linhas gerais, Camus revela um mundo ininteligível, indiferente e desprovido de sentido. Diante disto, e para escapar da tentação do suicídio (real ou filosófico), o homem deverá ser revoltar. A revolta induzirá o homem a se apropriar do absurdo e, assim, transformar em regra de viver o que antes era mera espera passiva pela morte.

É somente com a brutal tomada de consciência da vertigem absurda da vida que o homem, enfim, torna-se dono de seus dias. E assim, quem sabe, alcançará a liberdade e alguma paixão. Em tons conclusivos, dirá Camus que “só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis”. Se o escritor estiver certo, o absurdo não necessariamente derrota a felicidade. A frase icônica que fecha o ensaio ilumina e amarra toda a sua teoria: é preciso imaginar Sísifo feliz.

Motivos para ler:

1- Albert Camus (1931-1960), argelino radicado na França, tem seu nome gravado no altar dos maiores de sempre. Escreveu peças de teatro, romances, ensaios e artigos, todos sempre imbuídos de forte carga filosófica. Foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 e, três anos depois, morreu num acidente de carro;

2- O mito de Sísifo segue o gênero textual de ensaio, ou seja, um escrito no qual o autor apresenta reflexões sobre um objeto de estudo. O leitor, desfamiliarizado com temas filosóficos, poderia sentir alguma espécie de receio sobre o livro. A isso, respondemos: arrisque-se. Não é preciso apreender tudo o que o livro traz. Certamente o leitor captará algumas das belezas deste insuperável volume. E sempre poderá estudá-lo e revisitá-lo;

3As três páginas finais do ensaio são dedicadas ao mito de Sísifo: condenado pelos deuses a empurrar uma rocha montanha acima – de onde sempre cairá por seu próprio peso -, Sísifo passará toda a eternidade a realizar esse trabalho inútil e sem esperança. A comparação com a aloprante jornada cotidiana é evidente. Eis o absurdo. Haverá castigo maior do que esse? É possível ser feliz assim?