
História do colégio público mais antigo se entrelaça com a trajetória do próprio Município
No coração do Boqueirão, em Praia Grande, uma suntuosa construção completa seis décadas de existência. Mais antiga do que a própria cidade, foi fundada como Ginásio Estadual e hoje é a Escola Estadual Reynaldo Kuntz Busch. O prédio fez marcas na memória dos milhares de alunos que ali tiveram sua primeira formação. E a história do estabelecimento de ensino se entrelaça com os primeiros anos do município.
O historiador Sílvio Luis dos Anjos, que fez da própria experiência como aluno uma tese de mestrado e o livro “Memórias de uma formação cidadã”, lembra que, no período em que estudou na unidade (entre 1965 e 1978), apesar da ditadura militar ainda vigente no Brasil, a escola tinha um ambiente livre, com atividades culturais, incluindo teatro e eventos que envolviam toda a Cidade, como as gincanas interclasses.

“Naquele tempo, Praia Grande ainda era muito pequena e penso que, apesar de todo pensamento livre que tínhamos, o poder daquele momento achava que os alunos não representavam perigo”, recorda. Ele relembra os festejos, como os desfiles cívicos e as formaturas, que viravam “um verdadeiro acontecimento” na cidade, com presença do prefeito, do padre e até do comandante da Fortaleza de Itaipu.
Segundo suas pesquisas e lembranças, o então Ginásio surgiu da necessidade da comunidade, que até 1967 era um distrito de São Vicente. “Só havia pequenos grupos escolares que ofereciam da primeira à quarta série do antigo Primário. As crianças que quisessem continuar os estudos no Ginásio (que, atualmente, equivale do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental) tinham que se deslocar até o território insular, via Ponte Pênsil, o que na época era bem complicado”, conta Silvio.
PRIMEIRO GINÁSIO
Foi então que o vereador Oswaldo Toschi, morador do distrito, fez um requerimento ao prefeito, para que se instalasse um curso ginasial no distrito. O prefeito da ocasião, Charles Alexander de Souza Dantas Forbes, cedeu o terreno da Praça Guarani, para que se instalasse o educandário. O edil tomou a frente da iniciativa de arrecadar doações para a edificação, tanto em dinheiro como em material de construção, sem contar os eventos beneficentes. A obra ficou pronta em menos de seis meses. A inauguração, em 28 de julho de 1965, teve a presença do governador Adhemar de Barros, que fez do novo Ginásio uma extensão da Escola Martim Afonso, em São Vicente.
“Por causa do Ginásio, Toschi aumentou seu prestígio na cidade ao mesmo tempo em que despertava a ira de gente gananciosa de outras forças políticas do distrito. No fim, inventaram um conluio para cassar sua candidatura, com a desculpa de que o Ginásio foi construído sem licitação. E, devido a isso, ele teve seus direitos políticos cassados por 10 anos Foi insano, absurdo”, recorda Sílvio.
GINCANAS
Outro historiador da Cidade que também recorda os anos em que foi aluno do Ginásio, Cláudio Sterque lembra das gincanas da escola, que “paravam a Cidade” e aconteciam sempre na época do aniversário da escola. Eram tarefas interclasses, como angariar prendas ou trazer uma celebridade para a escola, que, caso fossem cumpridas, contavam pontos. A classe vencedora tinha como “prêmio” escolher entre os seus aqueles que seriam prefeito, secretários e vereadores da Cidade por um dia. Foi em um desses “mandatos” que a escola ganhou sua primeira linha telefônica, o que era artigo de luxo no auge dos anos 1970.
“Foi graças a essas gincanas que o Ginásio arrecadou livros que hoje compõem o acervo da Biblioteca da Cidade. Houve uma edição em que, para cada livro doado, contava um ponto”, destaca. “Aqueles foram momentos bons da minha vida, com colegas, professores e as atividades desse colégio. Eventos que envolviam toda a comunidade as atividades esportivas. Lembranças que nunca esquecerei”.
ALUNA CDF
Raquel Chini, ex-prefeita da cidade, também foi uma aluna da escola, no período que mudou de nome, de “Ginásio” para “Colégio Estadual”. “Minha família se mudou para Praia Grande, em 1969, por causa do colégio”, conta. “Era um prédio sem muros, com salas nos dois lados do corredor, com a área da frente onde cantávamos o hino nacional, e a quadra, nos fundos, local dos jogos de vôlei e basquete. Lembro também que, no uniforme, tinha uma saia cinza que ficava a cinco centímetros acima dos joelhos. As meninas enrolavam a saia e, quando chegavam na porta, desenrolavam. Senão a Dona Isaura, que fiscalizava a porta, desmanchava a barra”.
Apesar da fama, a prefeita não gostava muito da fama de ser “CDF”, alcunha que davam para os mais estudiosos das classes. “Sempre fui uma boa aluna, do tipo que gostava de aprender e cheguei a ganhar medalhas de melhor aluna da classe que guardo até hoje. Mas isso virou um fardo mais tarde. As mães de amigos, e mesmo na família, estabelecem comparação com a gente, e é muito ruim isso”, lamenta.
Os muros que hoje cercam a escola também teve influência dos alunos. “Fomos crescendo, formando grupinhos e começamos a fugir das aulas para ficar papeando no Canto do Forte. E os muros foram construídos. A gente continuava fugindo e subiram um outro tanto. E ainda assim a gente continuava a pular o muro. Lembro do inspetor que falava pra nós que ‘não estava vendo nada’ e do diretor Adauto, no fundo do corredor, com as mãos para trás nos olhando, quando entrávamos para as salas”, recorda Raquel.
Hoje engenheira e uma das figuras públicas mais representativas da cidade, Chini credita sua formação à escola. “Minha adolescência e minha juventude foram maravilhosos. Sou o que sou graças ao Colégio Estadual de Praia Grande, seus professores, a secretária Suely Toschi e todos os servidores da escola. As amizades que fiz naquela época perduram até hoje, mais de 50 anos depois e isto é um privilégio. Anualmente, no ultimo trimestre, nos encontramos em almoço comemorativo com as turmas todas misturadas e temos a felicidade de contar com a presença de alguns professores”, revela a ex-prefeita.

Ex-prefeita Raquel Chini (destaque) em desfile pelo Colégio Estadual de Praia Grande, no início dos anos 1970.
MUDANÇA DE NOME
Em 1975, um decreto da Assembleia Legislativa mudaria o nome do Ginásio, para homenagear Reynaldo Kuntz Busch, notório limeirense, membro da Academia Paulista de Medicina, que havia falecido no ano anterior. “Apesar da brilhante carreira, o homenageado não tinha nenhum vínculo nem com a comunidade, tampouco com a região. O que foi motivo de questionamento durante a solenidade da mudança de nome”, aponta Sílvio Luís.
Hoje, de acordo com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, a Escola Estadual Dr. Reynaldo Kuntz Busch tem 522 estudantes do Ensino Médio, distribuídos em 16 turmas.


Deixe um comentário